João Costa Pinto
João Costa Pinto 18 de Janeiro de 2016 às 19:25

A banca periférica - (LXIV)

A par da dívida, a reorganização dos mercados financeiros assume hoje uma importância central no movimento de consolidação do projeto do euro.

1. No último artigo referi que o movimento de reorganização e de redimensionamento dos mercados bancários da Zona Euro está a colocar às economias mais frágeis problemas particularmente difíceis. Compreendê-lo significa ter presente as pressões que os estão a modelar e sobretudo as suas implicações para o financiamento do crescimento e do desenvolvimento económico e social. 


Nestas economias - a braços com complexos processos de ajustamento estrutural -, os mercados bancários estão na verdade a ter de absorver dois tipos de pressões: por um lado, as que decorrem das alterações institucionais e dos quadros regulamentares com que a Europa do euro tem procurado responder à crise financeira; por outro, as que refletem o efeito dos programas de austeridade sobre o tecido produtivo e o emprego. No primeiro caso, trata-se sobretudo de regras - de liquidez e de alavancagem - adotadas como reação aos excessos que conduziram à crise financeira, com um duplo objetivo: cortar a ligação entre o "risco soberano" e o "risco bancário" e por esta via proteger os contribuintes; fortalecer o balanço dos bancos, aumentando a sua capacidade de absorção de choques.

 

Medidas que, pela sua densidade e amplitude, estão a condicionar as operações da generalidade dos bancos e a colocar a Europa do euro perante uma questão central: como assegurar que o financiamento do relançamento económico e do crescimento não são afetados, dado o incipiente desenvolvimento dos mercados de capitais. Conhecemos a resposta.

O lançamento, pelo BCE, de um programa assente na injeção maciça de liquidez e na manutenção de taxas de juro a níveis historicamente baixos. Com este programa, o BCE procura reduzir a fragmentação dos mercados bancários e induzir a normalização da oferta de crédito por parte dos bancos, como "via" para acelerar a retoma e evitar o enraizamento de um clima de deflação. Os resultados deste programa têm sido "mistos": se, por um lado, neutralizou as pressões especulativas sobre as dívidas soberanas e reduziu fortemente o custo a que as economias devedoras se estão a refinanciar, por outro, está a ter implicações muito complexas sobre os mercados financeiros da Zona Euro.

Na verdade, além de provocar uma - potencialmente perigosa - sobrevalorização dos preços dos ativos financeiros que o BCE tem vindo a adquirir, está a contribuir para tornar mais complexo e difícil o processo de reorganizar dos mercados bancários. De facto, o nível excecionalmente baixo a que as taxas de juro estão a ser mantidas, está a afetar a rentabilidade  da banca europeia, ao comprimir fortemente as suas margens financeiras. Se, além disso, considerarmos as pressões regulatórias referidas, compreende-se que os bancos se vejam forçados a recentrar os seus modelos de negócio e a redimensionar as suas operações. Movimento que tende a refletir-se nas condições da oferta de crédito - quantidade, preço e critérios de risco - e, por esta via, no financiamento global da atividade económica da Europa do euro.

As recentes afirmações de Christine Lagarde, de que a banca europeia mantinha ainda imparidades de cerca de 900 mil milhões de euros, dá-nos uma ideia da complexidade da tarefa que esta enfrenta. Permaneço mesmo convencido de que, a par da dívida, a reorganização dos mercados financeiros assume hoje uma importância central no movimento de consolidação do projeto do euro.

 

2. Mas, além das pressões comuns à Zona Euro, esta questão assume particular dificuldade nas economias mais frágeis. Nestas, os recursos públicos que têm vindo a ser mobilizados para recapitalizar os bancos em dificuldades, a par da necessidade de financiar a modernização e o crescimento - além do serviço da dívida - levam a colocar três tipos de questões: os problemas que estão a afetar os mercados bancários resultam de excessos e de erros de gestão dos bancos e/ou de falhas de regulação e supervisão que os permitiram ou são sobretudo o resultado das políticas de austeridade a que estas economias têm vindo a ser submetidas? Depois, quais as implicações destes problemas sobre o financiamento destas economias? Por último, qual a atitude que estas devem assumir perante estes problemas?

Aceitar que a sua resolução depende sobretudo da Europa e que a concentração bancária a nível transeuropeu é irreversível e até desejável, no caminho para uma união financeira? Ou, em alternativa, lançar um movimento de reorganização dos mercados financeiros domésticos - bancário e de capitais - de modo que, tendo embora em conta o contexto europeu, estes respondam às necessidades específicas das economias? Questões a retomar em próximos artigos.

 

Economista

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

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surpreso1 19.01.2016

Este está quase a chegar ao século XXI