José Borralho
José Borralho 19 de junho de 2017 às 13:04

Turismo de culinária, uma oportunidade ao alcance de todos

Há anos, numa conversa com um magnata saudita do petróleo, discutiam-se negócios e rentabilidades e eis que este lança a pergunta: "Qual acham ser o melhor dos negócios?"

Um dos presentes respondeu: "Obviamente o do petróleo." Para espanto de todos, o magnata contrapõe: "Não, o melhor dos negócios é o da energia, começando na agricultura que nos proporciona a primeira fonte de energia e será, por isso, sempre um negócio necessário."

 

De facto, o agroalimentar é um mundo de oportunidades e de dificuldades. A maioria do tecido empresarial é constituído por micro ou nanoempresas, com dificuldades em afirmar-se no mercado nacional, já para não falar do internacional. É por essa razão necessário abrir mentes e explorar oportunidades de integração intrassetorial.

 

O turismo, em Portugal, tem vindo a crescer exponencialmente afirmando-se como um dos principais motores da economia nacional, conquistando cada vez mais quota de mercado internacional.

 

Mas que relação há entre o agroalimentar e o turismo? O fenómeno da gastronomia, inserida na procura cultural, é hoje a razão de viagem para muitos, no intuito de provar e conhecer culturas de todo o mundo.

 

A gastronomia possui uma importância cultural e/ou natural tão excecional que transcende as fronteiras nacionais e reveste-se de caráter inestimável para as gerações atuais e futuras de toda a humanidade. A função do alimento, no caso a gastronomia, enquanto produto final da motivação da viagem torna-se uma realidade cada vez mais premente. O turista que procura cultura, património, praia ou compras é igualmente apreciador de atividades culinárias e experiências gastronómicas autênticas.

 

Este turista culinário é o que procura deliberadamente a gastronomia como motivação de viagem e a evolução verificada é significativa. Começaram por visitar restaurantes, bares e mercados, em busca dos sabores da terra e, hoje, dão lugar a um segmento que procura familiarizar-se com as tradições locais e que se envolve em "tours" gastronómicos, conhecendo através do palato a história e a cultura de um povo.

 

Esta evolução é significativa do ponto de vista económico, sobretudo se pensarmos que os "pratos regionais" podem mover a economia com aumento de postos de trabalho, com a criação de novas oportunidades, com o desenvolvimento da produção típica local e até do mercado de entretenimento.

 

Assim, a oportunidade que o turismo constitui para os nano e microempresários do setor agroalimentar é exponencial e não se fica apenas pela venda direta de produto em feiras ou pequenos mercados. O envolvimento destes produtores, com genuinidade e autenticidade, abre portas a novas oportunidades de negócio, nomeadamente por desenvolvimento de parcerias ou criação de novos produtos ou modelos de distribuição, que derivam da experiência obtida pelo turista no contacto com artes culinárias e de produção ancestrais, vendidas em dinâmicas de entretenimento que a médio prazo podem refletir-se em vendas.

 

Este trabalho dos produtores com os restantes agentes do turismo pode aumentar a base potencial de clientes e gerar negócio, pois atua junto de um público (turistas) que prescreve e partilha e ainda possibilita a criação de oportunidades para introduzir negócios, até à data considerados marginais. Trata-se de um mercado de elevado potencial e recetivo a pagar pela qualidade usufruída.

 

Nunca é demais referir os exemplos da Toscânia ou de Provence, e como fizeram do turismo de experiência gastronómica um caso de sucesso. Mas do que mais gosto é falar da empresa açoriana de chás Gorreana, que há 100 anos abriu portas aos turistas, sendo provavelmente a primeira no mundo a fazê-lo e para quem hoje esse mercado vale 40% da faturação, levando a marca a todo o mundo numa relação de proximidade com cada consumidor, que mais do que isso é um fã, que conta e sabe como é feito um dos melhores chás do mundo.

 

Claro que nem todos os produtores terão esta capacidade ou as condições para isto, mas que vale a pena pensar um pouco nisso e estudar esta oportunidade, lá isso vale. 

 

Presidente da Associação Portuguesa de Turismo de Culinária e Economia (APTECE)

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

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