Edson Athayde
Edson Athayde 12 de setembro de 2018 às 21:05

Um mundo de "ideotes"

"Atypical" é o nome de uma simpática série do Netflix que mostra as desventuras de um adolescente autista. Ao acompanhar os episódios acabamos por perceber (minimamente) como deve funcionar a cabeça de alguém que vê o mundo de uma forma completamente diferente do normal.

Um dos charmes de "Atypical" é justamente mostrar que esse olhar desviado da realidade não é uma característica só dos autistas e que todos nós, de uma forma ou de outra, também usamos óculos únicos e só vemos o que queremos ver.

 

Todos nós podemos até não ser autistas, mas somos idiotas.

 

Calma, não quero ofender ninguém. A palavra "idiota" vem do grego, nasce de "ideos", que significa algo pessoal ou privado. Os "ideotes" eram todos os que não exerciam cargos públicos, que era "homens comuns", ou seja, a maioria do povo. Só com o tempo é que a coisa ganhou os foros pejorativos que chegaram aos dias de hoje.

 

Um dos contrapontos do conceito original de "idiota" seria o "político", que vem de "politikos", aqueles que se ocupam de governar a "polis" (traduzido por "cidade"), teoricamente, decidindo em nome do bem geral, acima das suas visões pessoais do mundo.

 

Somos todos idiotas aos olhos dos algoritmos das redes sociais. Somos todos previsíveis, toscos, preconceituosos. Somos radicais de direita ou de esquerda (há até mesmo quem seja radical de centro). Somos assim porque só vemos/lemos/ouvimos aquilo que confirma as nossas opiniões.

 

Não se trata de um fenómeno novo, nem localizado. Mas nunca pareceu tão poderoso e ruidoso, arrastando a todos nós para um mar de desavenças, de um linguajar deplorável, de uma polarização besta.

 

O recente atentado ao candidato brasileiro da extrema-direita, Jair Bolsonaro, foi interpretado pelos seus eleitores pelo viés do mito, do mártir, do homem maior do que a vida. Já quem não votaria nunca nele (até agora, a larga maioria, é bom que se diga) prefere renegar o facto e/ou ver teorias da conspiração dos mais variados teores e calibres.

 

O interessante no evento da facada é que ele parece um ponto fora da curva de um guião até então, em boa maneira, previsível; parece um truque baixo de um telenovelista aflito com as audiências, que decide sacrificar um dos protagonistas sem ter muita noção de para onde vai a história.

 

De um jeito ou de outro, as eleições no Brasil entraram definitivamente para o campo da ficção. Sem que exista no horizonte qualquer sinal de um final feliz.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo, hoje mais sério do que o costume, citando o americano Scott Adams: "Quando você experimenta dissonância cognitiva, espontaneamente gera uma alucinação que se torna sua nova realidade. Para observadores externos, a alucinação pode parecer ridícula. Mas, para aquele que a experimenta, ela faz todo sentido. Assim, a primeira coisa que precisa saber sobre dissonância cognitiva é que é possível reconhecê-la com frequência nos outros, mas é raro reconhecê-la em si mesmo."

 

Publicitário e Storyteller

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

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