Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 31 de janeiro de 2016 às 17:48

[645.] FIFA; Entidade Reguladora da Saúde 

A FIFA será uma das mais corruptas organizações internacionais, mas a sua campanha contra o racismo é das mais significativas campanhas publicitárias de âmbito social.

A natureza promocional da publicidade proporciona uma esquizofrenia entre as instituições anunciantes e a sua realidade; já sucedeu entre nós, nomeadamente com os bancos. Enquanto a publicidade mostrava sonhos de instituições vibrantes, bancos como o BPP, o BE ou o Banif afundavam-se no mundo cá em baixo. O mesmo com a FIFA. A estrutura dirigente foi decepada pela investigação à corrupção monumental (de que os media estiveram desinteressados, por se submeterem à força religiosa do futebol na sociedade), enquanto a sua publicidade contra o racismo e pelo futebol unificador, e permitindo a alguns a ascensão social, encheu os ecrãs em todo o mundo.

 

A constante campanha da FIFA e também da UEFA contra o racismo é útil, dada a potência do futebol como faísca de sentimentos nacionalistas e xenófobos. Há milénios que o desporto tanto origina valores positivos como negativos. A FIFA faz a campanha anti-racista por convicção, mas não é preciso ser cínico para ver nela também a promoção de si mesma à conta dos valores positivos transmitidos. Quer a publicidade quer a atitude implacável das instituições desportivas contra atitudes racistas nos estádios têm decerto contribuído para mostrar o racismo como uma das mais ignóbeis convicções e atitudes humanas. Os anúncios visam um público mundial, pelo que falam apenas pela narrativa visual ou incluem estrelas mundiais do futebol dizendo "não ao racismo" em diversas línguas. O futebol pode unir, além da cor da pele, da religião, da pátria.

 

Um dos anúncios coloca dois grupos de crianças encontrando-se numa rua em Israel ou nos territórios ocupados. As crianças olham-se, mas o grupo que tem uma bola estende-a ao outro grupo e lá vão os miúdos judeus e muçulmanos jogar futebol na rua. Outro anúncio mostra fãs assistindo a partidas de uma prova internacional pela TV. Cada um torce por si, mas quando vêem que a seu lado está alguém de outra tonalidade rácica ou nacional, estranham-se momentaneamente para depois se abraçarem e usufruírem da alegria do jogo lado a lado e em conjunto.

 

Estes anúncios têm uma durabilidade invejável. Um tem três anos, outro, dois, outro é do ano passado, mas continuam a passar. Ao contrário dos produtos e serviços, que mudam nas prateleiras e sites a grande velocidade, exigindo sempre novos anúncios, esta campanha mantém o seu valor intacto e será útil enquanto houver um racista a confundir a cor da camisola com a cor da pele.

 

Nota: o bastonário da Ordem dos Farmacêuticos escreveu-me a propósito da minha análise a anúncios de suplementes alimentares à base de cálcio (O Manto Diáfano n.º 642). Carlos Maurício Barbosa refere que a providência cautelar da Ordem contra um anúncio de Calcitrin não foi "para contrariar a venda dum produto que não se vende em farmácia", como escrevi, mas porque a campanha ultrapassou "os limites do aceitável em matéria de publicidade a este tipo de produtos". A carta do bastonário adianta uma informação relevante: considera que a regulação deste conflito entre a Ordem dos Farmacêuticos (e também a dos Médicos) "recai sobre a Entidade Reguladora da Saúde, mas, ao que parece, a mesma entende não lhe estar atribuída". Sendo assim, eis de novo o Estado a lavar as mãos no que à regulação da publicidade se refere. O Instituto do Consumidor, como tenho escrito, é uma inexistência; a auto-regulação é outra; e agora verificamos que a ERS é outra ainda. Note-se que, se a ERS agisse, e com rapidez, a Ordem não precisaria de recorrer aos tribunais. Mas isso acaba por ser a consequência da ineficácia do Estado. Os organismos, ora adormecidos, ora incompetentes, ora cobardes, empurram a sociedade civil para litígios judiciais.

A sua opinião0
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
pub
pub
pub