Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 30 de março de 2016 às 00:01

[653.] Publicidade à TV na internet; Agência Abreu

Em breve o investimento publicitário na internet será superior ao investimento em televisão, dizem as notícias. Não dizem que uma parte do investimento na net é em conteúdos de televisão, que abundam na rede. E os conteúdos de TV na internet estão cheios de publicidade.

Os anúncios incluídos na apresentação de programas ou segmentos de programas televisivos em sites são considerados como investimento no digital, sejam esses sites de operadores de TV ou dos gigantes da net, como YouTube e Facebook. Por pequena que seja esta parte da publicidade no digital, ela é "roubada" às estatísticas da publicidade televisiva, gerada por conteúdos de TV. Compreende-se que seja difícil contabilizá-la, dado que está bastante dispersa, mas permite entender que as notícias que aceleram a morte dos media televisivos ainda são bastante exageradas.

 

Os grandes anunciantes e publicitários não dispensam a televisão, quer dizer, aquilo a que chamamos canais de televisão, porque ainda os consideram essenciais para construir marcas e para dar a máxima visibilidade a certas campanhas. Nem mesmo o zapping durante os intervalos de programas diminui a atractividade da TV como meio prioritário para uma parte importante das marcas. O tipo de contacto da TV com os seus utilizadores - muitos em simultâneo - tem um valor social e psicológico que a publicidade nos sítios digitais (ainda) não tem. Assim, a internet é um complemento ou um reforço para campanhas que não prescindem os canais de TV.

 

Aliás, o zapping é uma liberdade dos espectadores que os utilizadores da internet não têm quando querem ver um determinado conteúdo televisivo. Os anúncios no início de segmentos ou programas inteiros de TV são impostos como troca pelo acesso ao conteúdo. Impossível fazer zapping: fazendo net-zapping, quer dizer, mudando de site, leva-se com o mesmo ou outro anúncio em cima se se reabre a página anterior. Nem vale a pena, dado que é apenas um anúncio e o utilizador é geralmente informado da sua duração.

 

Outro tipo de publicidade em conteúdos televisivos na sua distribuição pela net é a de intervalos colocados à facada: no momento em que se chega, por exemplo, aos dez minutos dum programa, há uma interrupção para publicidade, qualquer que seja o momento do conteúdo: pode ser no meio duma cena de acção ou duma frase. A publicidade é encastrada num momento temporal sem qualquer relação com a narrativa ou construção do conteúdo quando apresentado na TV. Em termos de relação da publicidade com o espectador é a maior barbárie que existe desde que a televisão foi inventada. Por mais massacrantes que os intervalos fossem, eram intervalos, anunciados e colocados numa relação lógica com o conteúdo. Ninguém contesta, porém, pois se considera que "é internet". Na verdade, são conteúdos de TV na net, que, quando apresentados na TV, estão sujeitos a regras legais. Na televisão, os intervalos publicitários têm de ser identificados. Na internet, os intervalos, no mesmíssimo conteúdo, não têm de ser identificados e surgem do nada, a meio duma frase ou acção. Para estes não há regulação. Mas já se sabe: a regulação é um manto diáfano de fantasia sob o qual se esconde a realidade do mundo em que vivemos.

 

A Agência Abreu é uma das mais antigas empresas nacionais e a mais antiga do mundo no ramo. Nos 175 anos, em 2015, editou um livro dos historiadores Fernando de Sousa e Maria da Conceição Meles Pereira. As muitas ilustrações do livro mostram o empenho da Abreu numa publicidade discreta, mas persistente. Um caso em que o pequeno e a repetição compensam. Em vez de campanhas gigantes e vistosas, uma presença diária quase imperceptível. A Abreu ainda cá anda. Outras empresas, com grandes campanhas, jazem porventura no vasto e silencioso cemitério das Lda. e SA. 

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