Eurico Brilhante Dias
Eurico Brilhante Dias 31 de maio de 2016 às 20:25

Retomar a radicalidade do Centro

É semana de congresso do PS. Partimos para este congresso ao fim de cinco anos muito especiais.

Da oposição ao Governo PSD/CDS a partir da assinatura do memorando, até à promessa de vitórias substanciais não alcançadas e aos acordos à esquerda que desbloquearam anos de confronto. Mas também foram cinco anos de confronto do PS consigo próprio. Com as suas promessas eleitorais, com o programa de ajustamento que assinou, com as opções em torno do corte de salários e pensões e com a sua derrota num quadro de uma nova maioria que, por mérito de António Costa, lidera. Mas o maior desafio está ainda por ultrapassar: o das grandes opções programáticas no quadro europeu.

 

O PS é, sempre foi, a força política mais genuinamente europeia. Nasceu na Alemanha, cultivou - com Mário Soares a quem todos os tributos nunca serão suficientes - uma proximidade com líderes europeus. A "Europa Connosco" era muito mais do que um "slogan" de campanha. Foi a ambição de construir em Portugal, depois de anos de isolamento e no quadro do PREC, uma democracia pluralista, liberal - porque das liberdades -, no âmbito de um projeto de paz e de desenvolvimento económico. O PS é o partido - perdoem-me a vaidade porque falo do meu partido - mais radical na defesa das liberdades individuais, dos direitos humanos (e dentro destes os cívicos e políticos) e da Europa como projeto fundamental para a democracia portuguesa.

 

Não sonhámos com o Homem novo, nem nunca acreditámos em democracias avançadas que prescindissem das liberdades individuais e de associação. Não somos a vanguarda de outra coisa que não seja a liberdade como pilar fundamental da sociedade em que queremos viver. A nossa radicalidade sempre teve na economia social de mercado o modelo a seguir: uma economia de mercado suportada num contrato social (como consta aliás no Tratado de Lisboa). Os mercados não se autorregulam e o Estado tem um papel central para mitigar ou eliminar os desequilíbrios que emergem do seu funcionamento, bem como para reforçar a coesão social e territorial. Com o PS, ninguém nem nenhum território é prescindível; ninguém fica para trás.

 

Foi por isso que historicamente sempre encontrámos na democracia-cristã o parceiro preferencial na consolidação do modelo social europeu. E em Portugal, no CDS de Freitas do Amaral e no PPD/PSD de Mota Pinto, em circunstâncias diferentes, as alianças naturais no regime pós-25 de Abril. Foi aí que encontrámos o espaço para discutir políticas dentro do consenso em torno das liberdades individuais. Está aqui a grande "radicalidade do Centro" e o motor da então CEE: economia de mercado com contrato social, numa democracia plural e de promoção das liberdades.

 

Contudo, já estamos longe desta fase de idílio. Os partidos socialistas e sociais-democratas perdem eleições em quase todos os Estados-membros; os democratas-cristãos há muito que foram sendo substituídos por uma direita que só tem fé no mercado e/ou na autarcia. A parte do contrato social há muito que saiu do seu argumentário. Mas à esquerda o panorama não é muito melhor: perante a globalização e o envelhecimento, a oferta reconduz-se à defesa do que está, e dos grupos (instalados) mais afetados. Aos excluídos deste processo temos tido muito pouco a oferecer a não ser a defesa "em perda".

 

Quando a direita e a esquerda se radicalizam e se encostam aos extremos, retomando quantas vezes "trincheiras" antigas, regressam à ausência de projeto comunitário, e fica em causa a paz, as liberdades e o desenvolvimento. É urgente retomar de forma radical - da raiz neste caso - a ideia de um projeto comum na Europa. E é aí que está o "Centro". Temos de retomar a radicalidade do "Centro" por oposição à radicalidade dos extremos que nos levam para o confronto (para a guerra).

 

Deputado do Partido Socialista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

pub