Fernando  Sobral
Fernando Sobral 15 de fevereiro de 2017 às 20:10

Almada Negreiros e as SMS

Na excelente exposição da Fundação Gulbenkian sobre Almada Negreiros, é evidente o fascínio que sobre ele exerceram as figuras mascaradas da Commedia dell'Arte como o Pierrot ou o Arlequim.

Que não representavam personagens, mas sim emoções. É de emoções políticas que se está a fazer o inferno de Mário Centeno. Este, na sua desastrada acção na CGD, mostrou que é tão inábil em termos políticos como pode ser o garante das políticas financeiras que a Europa deseja. Centeno leu demasiado Keynes e Hayek e pouco Maquiavel e Clausewitz. Daí que, desactivado como génio da lâmpada, ficou prisioneiro de uma personagem que deveria ser secundária, António Domingues, e de uma oposição que, há falta de outros argumentos, viu aqui a sua fonte da juventude. Sobram aqui emoções e faltam personagens políticas reais. A política portuguesa está reconduzida ao excesso mímico e risível dos Arlequins que Almada desenhava superiormente. Neste contexto, o comunicado de Marcelo Rebelo de Sousa é claro: os interesses superiores do país requerem que Centeno se mantenha no posto. Depois cairá, numa tarde de Outono qualquer, como uma folha seca de uma árvore.

 

Não admira o furacão que PSD e CDS criaram à volta deste disparate. Centeno nunca ouviu o conselho de Maquiavel ao Príncipe: se não és amado, ao menos sê temido. Vítor Gaspar sabia isso. Nisso Centeno é como Maria Luís Albuquerque: olham para o umbigo e põem óculos de sol para não verem a realidade. O PSD e o CDS seguem uma estratégia de napalm: se não causarem medo a António Costa a sua acção diluir-se-á em nada. Mas não é por aqui que a oposição levará qualquer água ao seu moinho: os portugueses não querem saber disto, ignoram quem é Domingues, só querem que a austeridade deixe de ser tão rigorosa e que haja uma esperança qualquer no horizonte. É esse o erro do PSD e do CDS: a sua estratégia política teria de ser de sedução. E não apenas de terra queimada. Desactivar Centeno é fácil. Mas não é isso que trará o poder de volta à direita portuguesa. 

 

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