Fernando  Sobral
Fernando Sobral 09 de agosto de 2018 às 21:16

Incêndios: o nosso Frankenstein

Os incêndios tornaram-se o nosso Frankenstein. O verde transforma-se em cinzento, o azul dos céus em cinzento. E o medo vai corroendo todas as certezas.

Em 10 de Abril de 1815, na paradisíaca ilha de Sumbawa na Indonésia, o vulcão Tambora rebenta. A explosão é tão devastadora que a montanha onde está o vulcão perde 1.500 metros de altura, passando de 4.300 metros para 2.800. O estrondo escuta-se a centenas de quilómetros de distância. Milhares de pessoas morreram, entretanto, devido aos gases tóxicos ou queimadas pelas cinzas. Para a atmosfera são largados enxofre e cinzas numa escala nunca conhecida. Uma nuvem negra transforma o dia em noite. E esta nuvem, caminhando lentamente, acaba por chegar à Europa em meados de 1816, e deixou o Velho Continente sem Verão. Foi nesse mundo de frios aguaceiros que Mary Shelley criou a imortal personagem Frankenstein. Em Junho de 1816, em Villa Diodati, Lorde Byron desafiou os presentes ali a escrever um conto de terror. O ambiente externo é convidativo: chove durante três dias seguidos e o céu está sempre escuro. Frankenstein torna-se um símbolo dos nossos medos. Shelley sonhou com um cientista que criava a vida e ficou horrorizado com o resultado do que fez.

 

Os incêndios tornaram-se o nosso Frankenstein. O verde transforma-se em cinzento, o azul dos céus em cinzento. E o medo vai corroendo todas as certezas. O incêndio que começou em Monchique vai alimentar muitas teorias, certezas e incómodos. Durante muito tempo. Mas, independentemente de tudo, ele mostra a incapacidade estrutural de Portugal conviver com os seus problemas. Numa época em que o eucalipto se tornou o Diabo à solta e o culpado de todos os males, convém discorrer sobre um tema mais vasto: a sustentabilidade do nosso interior. Na zona de Monchique, o eucalipto domina, mas o sobreiro e o medronheiro também existem em grandes quantidades. E é ele o pulmão económico da região, mesmo com a chegada do turismo. E é aí que voltamos à questão crítica: como é possível ordenar o território, que a cada ciclo de 12 anos se tem de defrontar com incêndios destes (fala-se já que o próximo de grandes dimensões será na serra de São Mamede), se a pequena propriedade privada domina e o Estado tem uma pequena parte do território, ao contrário do que sucede na Europa? Mais, como Estado parece ser incapaz de gerir o que tem (veja-se o incêndio do ano passado no pinhal de Leiria), que lições pode dar para que os pequenos proprietários se juntem? Sem esta questão prévia parece impossível combater-se o que será um hábito, até por causa das alterações climáticas.

 

A economia é fulcral. A ela alia-se o repovoamento. Sem oferta, não se atraem jovens para reocupar estas terras isoladas e desertas de gente. A política de abandono por parte do Estado do interior levou também a estas catástrofes. Ou seja, sem uma reforma estrutural da acção do Estado, sem uma gestão profissional da "floresta" e sem a associação de pequenos proprietários (uns idosos, outros ausentes), nada mudará. Há depois a capacidade operacional dos bombeiros (e a sua coordenação). Parece que as opções com base política ainda se sobrepõem muitas vezes à qualidade e conhecimento. Será fácil agora criarmos uma caça às bruxas para descobrir culpados. Mas este Frankenstein veraneante que nos incomoda tem que ver sobretudo com a incapacidade de Portugal tomar decisões estruturais. Neste sector, como em muitos outros.

pub