Fernando  Sobral
Fernando Sobral 17 de julho de 2017 às 19:21

O futebol e a cegueira

Não é um "gesto técnico" habitual dos futebolistas. Antes do jogo com o Valência, o jogador do Sporting, Francisco Geraldes, foi apanhado a ler no banco "O Ensaio sobre a Cegueira" de José Saramago.

Aparentemente, Jorge Jesus não ficou contente com o talentoso jovem dos leões, com que parece não contar. Não se sabe se por estar a ler ou não estar devidamente concentrado a escutar as sempre clarividentes palavras do treinador do Sporting. Nada que admire no futebol português, palco de uma contínua caça às bruxas em que cabem árbitros, bruxos, mails, telefonemas, apitos, viagens e mesmo intromissões políticas, como se viu na recente iniciativa do PSD que queria colocar a arbitragem da Liga no recato da FPF. Este é o palco de dirigentes que necessitam de se tornarem conhecidos. E é o único país do mundo tutelado pela FIFA onde os directores de comunicação dos clubes são estrelas mais brilhantes do que os jogadores, os verdadeiros artistas do futebol. E, depois, há quem chame a tudo isto uma indústria. O livro que Geraldes estava a ler simboliza, na sua ironia, o verdadeiro estado do futebol indígena que só as vitórias internacionais e os talentos individuais de muitos futebolistas escondem.

 

O futebol português está repleto de talentos. Mas falta-lhes craques a governar muitos dos seus clubes. O endividamento dos clubes (para já não falar da intervenção da UEFA no FC Porto), a falta de recursos, o desnível competitivo da Liga e os erros dos dirigentes criaram este modelo decadente. Em que o mais fácil é culpar o árbitro pelas derrotas. Prestes a iniciar-se uma nova temporada, os melhores talentos saem para a Europa e os clubes têm de reconhecer que o seu modelo passa por os criar e rentabilizar. E colher proveitos da Liga dos Campeões (algo que está a afunilar-se e vai implicar, a curto prazo, a passagem dos "três grandes" a "dois grandes"). Só assim se equilibrarão as contas. Como conciliar isso com as vitórias que alimentam os adeptos é o outro desafio. Até lá, sem se mudarem as mentalidades, a culpa de tudo será sempre do árbitro.

 

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