Fernando  Sobral
Fernando Sobral 13 de julho de 2017 às 19:49

O glutão da Amazon

Vivemos num mundo de redes sociais onde se vive uma verdadeira guerra civil. O discurso do ódio que permeia o Facebook e o Twitter começa já a fazer estragos irreparáveis na sua reputação.

Mas, enquanto isso, constrói-se a nova economia global, onde por trás da "destruição criativa" com epicentro em Silicon Valley, se está a criar uma nova era de monopólios. Mais fortes do que os Estados porque ultrapassam todas as fronteiras físicas. O capitalismo de plataforma faz parte deste novo conceito de economia. Pelas leis da lógica, os conglomerados deveriam ser uma figura do passado. Para que fosse possível a concorrência entre empresas mais pequenas e ágeis, mais criativas e inovadoras. O problema é que algumas empresas, em especial algumas americanas, têm vindo a alargar tanto a sua influência que estão a esmagar sectores de actividade que as alimentam e nada recebem em troca. Veja-se o caso da Google com a comunicação social.

 

Um caso mais paradigmático desta alteração estrutural a nível da economia é a Amazon. Em meados dos anos 90 parecia que Jeff Bezos queria uma empresa que fosse apenas uma livraria online. Mas rapidamente a empresa começou a vender todo o tipo de coisas. E aí começou a desconfiar-se que ele desejava ser o dono de uma nova Walmart, o paradigma das redes de supermercados americanos. Hoje pergunta-se: o que é que Bezos quer ter debaixo do seu chapéu-de-chuva? Ninguém sabe. Mas a perspectiva começa a ser alarmante: numa época em que muitos Estados (e as suas administrações públicas) minguam, empresas como estas, na sua dimensão planetária, começam a assustar. Depois de uma luta sem tréguas contra os conglomerados, será que eles estão a ressurgir?

 

O anúncio da proposta de compra, pela Amazon, da Whole Foods por 13,4 mil milhões de dólares reacendeu o debate. Poderá tornar-se o grande peso pesado do comércio, e este hoje integra a venda de produtos online ou em lojas, pagamentos e créditos, produção e distribuição de conteúdo televisivo e de media, edição de livros e mesmo transporte marítimo e aéreo. Um verdadeiro polvo. Os conglomerados regressam, não como uma farsa, mas com um aspecto pretensamente moderno, nascido e criado em Silicon Valley, com CEO que usam ténis e "t-shirts". Mas a essência é a mesma. Ou mesmo mais perigosa para as nações e para as democracias que se sustentam numa economia de mercado onde a competição é fulcral.

 

Ninguém sabe se estas empresas da área tecnológica terão futuro. Depois de terem sucesso numa área, e com o "cash-flow" disponível, vão engordando em todas as áreas possíveis. Tornam-se glutões. A questão é que, ao poderem tornar-se demasiado poderosas, tentando demonstrar que isso beneficia (em termos de custos) os consumidores, empresas como a Amazon podem usar a sua posição dominante para impedir a concorrência e bater o pé à necessária regulação. Estamos a chegar a uma nova era do capitalismo, da relação entre os Estados e estes novos conglomerados (Amazon, Google, etc.) e da própria coesão social, já que o velho contrato social que fez crescer uma classe média sólida e importante está a ser posta em causa por esta sociedade "low-cost" onde nos vamos afunilando. O que a justiça federal americana decidir relativamente à compra da Whole Foods pela Amazon poderá ser determinante para o futuro da sociedade de mercado como a conhecemos. E a entrada numa nova era desconhecida. 

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