Fernando  Sobral
Fernando Sobral 13 de fevereiro de 2017 às 21:05

O novo poder global

A China está a desenvolver uma inteligente estratégia geoeconómica que, a prazo, se poderá tornar muito mais vasta a nível político. Isto enquanto os EUA se tornam nacionalistas e proteccionistas. 

O discurso do Presidente chinês, Xi Jinping, em Davos marcou o início de uma nova era global. Ele apresentou-se como um defensor firme da globalização económica, num tempo em que muitas das nações que sempre defenderam essa ideia, a começar pelos EUA, parecem estar a fechar-se no nacionalismo económico. Já antes, na sua visita a Genebra, na Suíça, tinha desenvolvido essa ideia com números esmagadores: "Nos próximos cinco anos, a China vai importar 8 triliões de dólares de bens, atrair 600 biliões de dólares de investimento estrangeiro, fazer 750 biliões de investimento externo e os turistas chineses farão 700 milhões de visitas ao estrangeiro." Se dúvidas houvesse sobre o peso cada vez maior da China no comércio mundial, elas estariam dissipadas. A ideia de um "futuro partilhado" é a base da política de Xi Jinping. Mas nos EUA os tempos são de mudança, com uma animosidade notória da administração Trump ao poder chinês, mesmo depois de Trump, ao telefone com Xi, ter garantido a continuação da política de "uma China", mostrando que as relações com Taiwan continuarão a ser laterais.

 

Mas numa coisa o choque é notório: a política da China, em matéria da chamada "Nova Rota da Seda" assenta numa premissa: as vias de abastecimento. São os pilares de um novo modelo geoeconómico e transnacional que, a prazo, se poderá transformar num modelo geopolítico de futuro. As vias de abastecimento cimentam as rotas transiberianas do Sudoeste Asiático ou através do Paquistão e encontram um parceiro financeiro global, o Asia Infrastructure Investement Bank. A juntar a isso, uma outra organização económica faz a aliança com a Rússia e a Ásia Central: a Eurasian Economic Union. Ambas as estratégias são complementares, deixando na defensiva os EUA e a própria União Europeia. Embora, compreensivelmente, se os EUA de Trump apostarem na desintegração europeia, a China deseja que o mercado único continue. A ideia não é apenas uma integração entre a Europa Oriental e a Ásia. É entre a Europa e a Ásia. Aí nem falta a Austrália, que depois de Trump ter dito ao primeiro-ministro australiano, Malcolm Turnbull, que o acordo celebrado com Barack Obama sobre refugiados não era válido, se mostra mais inclinado em fortalecer as relações com Pequim. E, recorde-se, a Austrália sempre foi um sólido aliado dos EUA na região, no contexto anglo-saxónico. A China, com Trump, sabe que tem de depender menos das exportações para os EUA e deve continuar a investir no mercado interno. Resta saber se Trump e os seus mentores vão continuar a alimentar uma guerra comercial (e política) com Pequim. Aí todos seriam perdedores.

 

Japão: o difícil acordo com os EUA

 

Donald Trump e Shinzo Abe, o primeiro-ministro do Japão, têm uma coisa em comum: ambos gostam de golfe. E ambos tentaram usar uma partida de golfe para cimentar as relações comerciais entre os dois países, chamuscadas por várias declarações de Trump e com o fim abrupto da Parceria Transpacífico, o TPP. A ideia era forjar uma relação pessoal entre Trump e Abe que pudesse desbloquear muitos temas sensíveis, e não apenas económicos. Aparentemente, Abe estaria disposto a avançar com 450 mil milhões de dólares de investimentos nos EUA, nas áreas dos comboios rápidos, energia e inteligência artificial, de forma a criar empregos. A forma de isso ser levado à prática estará nas mãos do vice-presidente Mike Pence (que teve ligações anteriores à Toyota e foi um defensor do acordo TPP) e do ministro japonês das Finanças, Taro Aso. Como pano de fundo está a possibilidade de um acordo comercial bilateral entre os dois países. Há outras questões por resolver: as alegações de que o Japão "manipula" a moeda para aumentar a sua capacidade exportadora, como já afirmou Trump, e o défice comercial dos EUA relativo a importações de produtos japoneses. Por outro lado, as relações de segurança e militares parecem ter-se desanuviado depois da visita de James Mattis, o secretário da Defesa dos EUA, a Tóquio. Os EUA já disseram que estão ao lado do Japão na questão da soberania das disputadas (com a China e Taiwan) ilhas Senkaku. Mas no sector comercial há um importante entrave: como fazer um acordo, quando os EUA tentam entrar no sensível mercado agrícola japonês, um sector vital para o Japão.

 

China: trocas com PALOP diminuem

 

O valor das trocas comerciais entre a China e os países de língua portuguesa diminuiu em 2016 pelo segundo ano consecutivo, ao atingir 90.874 milhões de dólares, com uma contracção homóloga de 7,72%. Em 2015, o valor do comércio entre a China e os oito países de língua portuguesa ascendeu a 98.474 milhões de dólares, valor que representou uma quebra de 25,73% relativamente aos 132.581 milhões de dólares registados em 2014. As trocas comerciais da China com Angola e com o Brasil, no montante de 83.146 milhões de dólares, representaram 91,5% do total. Portugal comerciou com a China produtos no valor de 5.617 milhões de dólares (+28,54%), com importações portuguesas de produtos chineses no valor de 4.037 milhões de dólares (+39,30%) e exportações no valor de 1.580 milhões de dólares (+7,36%).

 

Turquia: referendo a 16 de Abril

 

A Turquia prepara-se para o referendo às mudanças constitucionais que decorrerá a 16 de Abril. A ideia central é criar uma presidência executiva, o que reforçará os poderes do Presidente Recep Tayyip Erdogan. O novo artigo 18 criará uma presidência executiva pela primeira vez na História da Turquia moderna. O Presidente terá o poder de nomear ou demitir ministros, enquanto o lugar de primeiro-ministro poderá ser abolido. Os dois principais partidos da oposição, o secularista CHP e o pró-curdo HDP, dizem que a mudança acabará com o balanço que era garantido pelo poder legislativo.

 

Macau: mais cartões de crédito

O número de cartões de crédito pessoal emitidos, directa ou indirectamente, pelas instituições de crédito autorizadas em Macau atingiu 1,06 milhões no final de 2016, que representou um acréscimo de 2,7% relativamente ao contabilizado no final do trimestre anterior. 

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