Fernando  Sobral
Fernando Sobral 14 de fevereiro de 2017 às 20:35

O tempo e a fé de Centeno 

Já se sabe que, no jogo, como na política, há apostas demasiado arriscadas. Como, por exemplo, elevar um ministro à categoria de santo. Isto porque, todos o sabemos, fé e poder são incompatíveis.

Mário Centeno tem poder. Mas deixou de ter seguidores para a sua fé. Ou melhor, os que tem dão-lhe esse poder fictício. Nem a Marcelo, nem a António Costa, nem à União Europeia interessam que Centeno caia da cadeira e aleije a ténue relação de confiança entre Portugal e os mercados e as instituições estrangeiras. Que um dia Centeno se venha a aleijar, isso é outra coisa. É por isso que atrás de Centeno se cerraram fileiras para combater a horda oposicionista que, mais do que derrubar Centeno, aponta a Costa e ao carácter público da CGD. O filósofo inglês Alfred Ayer, autor do clássico "Linguagem, Verdade e Lógica", dizia que a contradição era mais grave do que a falsidade porque na primeira há um grau de intencionalidade, enquanto a segunda pode ser puramente acidental. Poderíamos criar um exemplo académico: podemos dizer que está um cinzeiro em cima da minha mesa, mas essa afirmação é falsa porque está em cima de uma cadeira. Trata-se de um erro que não altera o facto substancial da existência do cinzeiro. Na política (ou na justiça), estamos cheios de deslocações da realidade assim.

 

Mário Centeno não vai cair. Não porque seja um sempre-em-pé, mas porque seria catastrófico para o Governo e para Portugal neste momento. Mesmo que isso doa a António Domingues ou irrite o PSD e o CDS. É óbvio que o cozinhado feito entre Domingues, os seus advogados e o Ministério das Finanças tinha os ingredientes todos. Mas todos se esqueceram de uma lei, o gás, sem a qual tudo era uma ficção. Não há santos aqui. Tal como não há no facto de ninguém querer vislumbrar as dívidas derivadas de empréstimos sem tino feitos ao longo dos anos. Nisso o bloco central de interesses que ocupou a CGD protege-se. Centeno cairá de maduro. A seu tempo. Mas ainda não é tempo para isso.

 

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comentários mais recentes
Mello-Sampayo 16.02.2017

Afirmações há completamente incompreensiveis e esta de o Mário dde vrstant ser insubstituivel é grave alias coko se diz os insubstituivel estao todos no alto de São João

helmarques 15.02.2017

Explique la isto melhor "relação de confiança entre Portugal e os mercados e as instituições estrangeiras." Isto não tem nada a ver com os juros...a tal confiança é só política...

comunista marxista-leninista 15.02.2017

Força, Centeno, o melhor ministro das finanças de todos os tempos. Os portugueses estão contigo. Por favor não ligues aos cães que ladram de inveja e não nos abandones.

Mr.Tuga 15.02.2017

Excelente artigo!

E o PM Antoine lá se vai safando incolume como se nada tivesse a ver com o assunto... Como se de nada soubesse!

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