Fernando  Sobral
Fernando Sobral 14 de novembro de 2017 às 19:08

Venha a Nós!

No seu fascinante livro "Payback", a escritora Margaret Atwood discorre sobre o tema da dívida, esse tema desconhecido para o PCP e para o BE quando se fala de OE.

Nele, ela escreve: "No Céu não há dívidas - estão todas pagas, de uma forma ou de outra ; no Inferno, porém, não há nada senão dívidas, e é cobrada uma enorme quantidade de pagamentos, embora nunca possa ser tudo pago. Tem de se pagar, pagar e continuar a pagar. Dessa forma, o Inferno é como um cartão de crédito infernal maximizado, que multiplica interminavelmente os encargos." Não podemos deixar de sublinhar as palavras da escritora, que nos diz algo sobre o destino de Portugal. Somos todos filhos desta dívida que existe e que, para alguns, pareceu ter nascido do nada. Uma dívida que não se paga com cartão de crédito, seja dourado ou de platina. Nem se apaga com uma borracha, como certos seres bem pensantes julgam. Este é o Inferno que criámos, filho de um aumento estúpido da despesa pública sem crescimento económico com tudo pago pelo dinheiro que pedíamos no exterior.

 

Talvez por isso Mário Centeno tenha vindo alertar: "Sabemos que vêm aí tempos melhores para a economia europeia. Mas os tempos melhores virão associados a um ciclo de taxas de juro mais elevadas." Ou seja, as taxas de juro baixas estão prestes a desaparecer. Não são eternas. E aí, ou temos uma dívida substancialmente mais baixa, ou a despesa com juros da dívida (3,9% do PIB actualmente) será ainda maior. Uma rocha demasiado pesada para carregarmos nas nossas fracas costas. É isso que um vasto sector que dá apoio parlamentar ao Governo parece incapaz de vislumbrar: acha que descobriu a árvore das patacas. Ou, como escrevia na década de 20 do século XIX, "O Nacional": a "escrituração do tesouro" era feita por "partidas singelas e muito singelas", ou seja, "deve, há-de haver e Venha a Nós". A gestão do Estado tem seguido esse princípio: por isso engordou à conta dos interesses partidários. As palavras avisadas de Mário Centeno, que aprendeu com o tempo, são um alerta.

 

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Mr.Tuga Há 1 semana

CERTO!

Mas é EXTRAORDINARIAMENTE IRONICO esse "alerta" vir do MF mais esbanjador, distribuidor de BENESSES e criador de DESPESA..... das ultimas décadas, não?

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