Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 05 de setembro de 2017 às 19:40

A bondade "é de homem"

Chame bondoso a um homem e a probabilidade é grande que proteste, imaginando que lhe está a chamar banana. Ou "menina". Mentira!

Era preciso selecionar um candidato para um lugar de grande responsabilidade e durante dois dias vi-o entrevistar um a um, fazendo perguntas sempre num tom afável e inteligente. Por vezes, os candidatos eram extraordinários, noutras, medianos, e nalguns casos verdadeiramente maus, mas ao despedir-se de todos eles, ressaltava sempre uma qualidade, um momento de brilho.

 

Quando eram inacreditavelmente arrogantes, ou me pareciam não ter qualquer noção de como estavam a anos-luz das qualificações pretendidas, mal a porta se fechava, dava por mim a protestar, mas ele retorquia que era importante que no momento em que soubessem que não tinham sido selecionados, recordassem a experiência apesar de tudo como positiva, encontrando coragem para tentar de novo. Se não ali, noutro lado.

 

Depois da última entrevista, disse-lhe, com sentida admiração: "O senhor é um homem muito bondoso", mas, para meu espanto, reagiu ao elogio com incómodo. Sentiu-se mesmo na necessidade de me explicar que sabia "ser mau", desfilando casos em que reagira de forma dura com quem achava merecer dele esse comportamento. Insisti: "Mas eu disse bondoso, não disse banana!" Temo, no entanto, que tenha imaginado de alguma forma que as duas palavras eram sinónimo. E não podem ser menos.

 

Desde aí tenho estado a pensar que se passamos o tempo a falar do inquestionável direito das mulheres a poderem ser tudo o que quiserem, sem medo de se tornarem "masculinas" só porque ascendem a lugares de chefia e autoridade, esquecemo-nos de como os homens, ou pelo menos a maioria deles, estão aterrorizados com a ideia de poderem ter qualidades tradicionalmente (e muito mal!) conotadas como femininas.

 

Perante esta questão há logo quem tire do bolso estudos e sondagens, como a do American YouGov 2016 em que um largo universo de homens norte-americanos de todas as idades foram convidados a autoclassificarem-se num espectro de 0 a 6, sendo zero "Completamente feminino", e seis "Completamente masculino". Os resultados divulgados pela CNN indicam que apenas 28% dos homens com menos de 44 anos se dizem "Completamente masculinos", por oposição aos com mais de 65 anos, em que 65% nem a brincar quer imaginar-se com um grama que seja de feminilidade o que, na opinião triunfante dos comentadores, era sinal de que caminhamos no bom sentido. Mas cá para mim é absurdo colocar a questão nestes termos, exatamente porque a escolha tem subjacente as ideias feitas que temos na cabeça sobre o que é ser homem ou mulher. E se sou contra a ideologia que nos diz que não há diferenças nenhumas, fazendo crer que a biologia não conta para nada, não tenho dúvida absolutamente nenhuma de que a bondade não tem sexo.

 

Partir daqui para dar exemplos dos homens bondosos que conheço, como se fossem exceções à regra, ou argumentar que há mulheres que não o são, seria cair na mesma armadilha.

 

Mas se algum bondoso envergonhado me ler, queria mesmo que passasse a colocar a bondade na primeira linha do seu CV. Queria mesmo que deixasse de sentir que tratar os outros com consideração e justiça, cuidando de não os humilhar, mesmo quando é preciso dizer não, é uma qualidade que se pode confundir com falta de autoridade, assertividade ou coragem. E muito menos de masculinidade.    

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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