Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 26 de dezembro de 2017 às 20:33

A fatura do arrependimento

Nesta quase véspera de ano novo, o desafio não é pedir um milagre por cada passa, mas antes a lucidez e a coragem para enterrar o que objetivamente já morreu.

Se o arrependimento não doesse, não aprendíamos com os nossos erros. Continuávamos a repeti-los vez após vez, diz o economista Eyal Winter, autor de um livro sobre como as nossas emoções são mais racionais do que aquilo que pensamos.

 

Não custa nada acreditar. Ninguém dúvida de que dói chegar ao fim de um ano e intuir que se perdeu tempo e dinheiro a perseguir um projeto que não deu em nada, que a empresa que se criou não vai passar da cepa torta, que o curso em que se queimaram as pestanas afinal não interessa ou que a relação amorosa em que se apostou, não leva a lado nenhum. Dói mesmo.

 

E porque dói, depressa aprendemos a evitar a dor, sem perceber que o sofrimento provocado pelo medo do arrependimento é não só maior ainda, como infinitamente mais demolidor. Só que o nosso cérebro parece ter sido de alguma forma programado para fazer tudo, inclusive os mais contraproducentes disparates, não só para evitar o que nos é desagradável, como para impedir que fiquemos pior do que já estamos. Por outras palavras, somos naturalmente avessos a perder, mesmo a feijões, e é fácil a esperança transformar-se em doença. 

 

Só assim, diz Eyal Winter, conseguimos explicar, por exemplo, porque é que alguém que investiu em ações na Bolsa, se recusa a vendê-las mesmo quando a evidência é gritante de que a cada minuto que passa se desvalorizam, sem qualquer possibilidade de alguma vez recuperarem o valor que pagaram por elas. A endividar-se para salvar um projeto profissional já obviamente falido, ou uma relação amorosa redondamente falhada. Com uma agravante: quanto maior é o investimento, em termos financeiros ou afetivos (habitualmente ambos), mais desesperadamente se luta até à irracionalidade, e mais além.

 

Dito assim parece que ninguém se safa. Eyal Winter, no entanto, oferece um antídoto. Garante que o medo do arrependimento fica fortemente atenuado quando as pessoas se prestam a ouvir o conselho dos outros. De um consultor financeiro, de um orientador vocacional, de um amigo próximo. Não porque o seu parecer evite o desenlace inevitável, mas porque partilhar a responsabilidade pela causa do arrependimento alivia. Até porque, rapidamente, se fazem dos outros bodes expiatórios, permitindo salvaguardar o ego.

 

Eu cá para mim tenho uma teoria um bocadinho diferente. Se tivermos mais compaixão por nós mesmos, se formos mais tolerantes para com o erro, logo desde os bancos da escola, se formos capazes de perceber que desistir de alguma coisa, admitindo que falhámos, pode ser bem mais corajoso e digno do que persistir no disparate, temos mais hipótese de nos libertarmos de círculos viciosos. Reconhecendo que é sinal de inteligência, e não de fraqueza, recorrer a quem nos ajude a arrumarmo-nos por dentro, a fazendo o luto dos nossos arrependimentos, encontrar o caminho entre as teias que vamos tecendo, sempre muito mais complexas (e fascinantes) do que aquilo que imaginamos. Não para dividirmos o mal pelas aldeias, mas para nos tornarmos mais capazes de assumir a responsabilidade pela nossa própria felicidade.

 

Nesta quase véspera de ano novo, o desafio não é pedir, por cada uma das doze passas,  doze milagres, mas antes a lucidez, coragem e honestidade necessárias a enterrar o que objetivamente já morreu. Porque se não o fizermos em menos de nada é uma vida inteira posta em causa, e essa sim, é uma dor irreparável. Feliz 2018.

 

Jornalista

 

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