Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 02 de janeiro de 2018 às 20:26

Enganar os outros (e a nós mesmos) 

Se fossemos sinceros admitíamos que a nossa lista de resoluções para o ano novo é, basicamente, um enumerar de intenções que não temos a menor intenção de cumprir.

Começamos logo o ano a mentir. E a nós mesmos, o que é ainda pior. Porque se fôssemos sinceros admitíamos que a nossa lista de resoluções para o ano novo é, basicamente, um enumerar de intenções que não temos a menor intenção de cumprir. De coisas que odiamos, mas que nos dizem que nos fariam bem. Aliás, basta pensar que se realmente fossem assim tão importantes para nós, já tínhamos dado conta delas no ano passado, ou no ano antes desse ou, na verdade, desde que começámos a sentir a obrigação de pôr a vida em ordem só porque o calendário não tem mais dias.

 

Kaitlin Wooley, da Cornell University, e Ayelet Fishbach, da Universidade de Chicago, deviam ter dúvidas parecidas com as minhas, porque se dedicaram a investigar a fundo o mistério das resoluções de Ano Novo. As conclusões, publicadas na semana passada, parecem confirmar a minha suspeita. Sim, porque só por um exercício de autoilusão se consegue explicar que 55% das resoluções respeitem a promessas de hábitos de vida mais saudáveis (mais ginásio, mais dieta, mais folhas de alface), 34% à esfera profissional (mais poupança, menos dívida, nova carreira...), e apenas 5% ao amor e à família, sem a qual, convenhamos, pouco importam as outras. Não se vergaste já, porque toda a gente faz o mesmo, a começar pelos nossos governantes. Repare como não é muito diferente: Mário Centeno deseja uma economia em crescimento, o leitor diz que tudo o que deseja é poupar mais, já de olho na próxima "Black Friday"; António Costa assegura que a sua prioridade são menos desempregados, e o leitor jura a si mesmo que vai dedicar-se mais ao trabalho, uns e outros, a fazer contas aos feriados e às pontes de 2018. E depois, da mesma forma que o Governo declara o desejo de mais empresas a investir e a exportar, enquanto aumenta o IRC e cede à pressão dos sindicatos, também o comum dos mortais continua a dizer que é desta que vai perder 20 quilos, enquanto deglute fatias de bolo-rei (torrado com manteiga, no meu caso!). E é claro que o primeiro-ministro, como qualquer um de nós, sabe bem que reduzir o aparelho de Estado ou a massa gorda faria muito bem à saúde, mas a questão são as dores de cabeça necessárias para lá chegar.

 

A pergunta que se impõe, portanto, é porque é que ainda vamos anunciado objetivos que estamos cansados de saber que não vamos cumprir? Primeiro, porque ainda acreditamos em magia, e sabe-se lá se uma fada madrinha não nos realiza o desejo sem que seja preciso sair do sofá e, depois, porque gostamos das palmadinhas nas costas que recebemos sempre que anunciamos boas intenções. O pior, escreve a neurocientista Marwa Azab, é que o fluxo de dopamina provocado por esses "likes", presenciais ou virtuais, engana o cérebro. Comunica-lhe que a missão está cumprida, e pode pensar noutra coisa mais interessante. Deve ser por isso, que mal os políticos afixam cartazes com promessas, as imaginam cumpridas. Idem, aspas para o último "post" no Facebook em que anunciamos o nosso propósito de cumprir uma meia maratona.

 

Diz Marwa Azab que só se cumprem as resoluções que se mantêm em segredo, aquelas para as quais se desenha um caderno de encargos, que paulatinamente se vai cumprindo. Mas isso é o que  já fazemos com aquilo que realmente nos importa, aquilo que nos toca no fundo, que nos dói e nos impede de ser felizes. Essas mudamos mesmo, porque o preço de não mudar é suficientemente alto para nos tirar do sofá.

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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