Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 18 de julho de 2017 às 21:12

"Jobs for the girls" (e outras histórias de quotas de género)

Ora, pensem lá, como é que as quotas de género se vão aplicar às famílias, a todos os títulos empresas privadas, com a agravante de que os sócios até dormem na mesma cama?

Quando a temperatura sobe acima dos 40.º C, e não há ar condicionado, até a mais escorreita das criaturas começa a delirar. E foi assim, sem chapéu que me protegesse os miolos, que comecei a discorrer sobre a lei das quotas de género nas empresas. O assunto é quente. Ninguém duvida de que quando 59% das licenciaturas pertencem a mulheres e menos de 10% das empresas nacionais são lideradas por mulheres, e as mulheres ganham em média menos 18% do que os homens, alguma coisa não está bem. Mas, o que aqui está em causa é qual a melhor forma de corrigir o problema. Vamos por partes.

 

Parte I -  Entende-se perfeitamente que os deputados e o Governo (este, os que o antecederam, e os que sonham vir a seguir) queiram dar o exemplo de uma distribuição de poder mais equitativa. Afinal, sabem melhor do que ninguém que o mérito das mulheres raramente garante os "jobs" de topo no aparelho do Estado, nem tão-pouco os intermédios, pela simples razão de que estão sempre reservados para os "boys". Posto isto, numa leitura otimista, agem por remorsos, necessitando da  força da lei para emendar a mão e calar as clientelas partidárias; numa leitura pessimista, sentem-se pressionados pelas cada vez mais numerosas "girls", que também querem repartir o bolo. 

 

Fico muito mais descansada se, de facto, o mérito for claramente afastado desta equação, porque o que mais me incomodava nesta história das quotas era imaginar que na Europa do século XXI se criavam leis destinadas a fechar os olhos ao mérito, discriminando alguém simplesmente em função do género a que pertencia. Isso sim, seria chocante.

 

Do mal o menos, portanto, mas daquilo de que ninguém livra os contribuintes é de uma nova bolsa de excedentários, que inevitavelmente será criada para os rapazes que vão ficar sem o tacho, e a que, suspeito, dificilmente se dará préstimo.

 

Parte II -  Coisa diferente parece-me ser, quando se salta  da esfera pública para a esfera privada. Como escreveu há dias Alexandra Ferreira, numa inteligente crónica intitulada "Em minha casa mando eu", os ímpetos populistas "ficam lindamente no papel, mas quase sempre têm a consequência de ferirem direitos adquiridos fundamentais. E um deles é que quem manda nas empresas são os acionistas".

 

Cá para mim a profecia vai cumprir-se. O que me bateu, neste dia de calor em brasa em que escrevo, foi exatamente a súbita consciência dos sarilhos em que esta gente se meteu, atentando (imagino que sem querer) contra uma das suas mais duras conquistas. Ora, pensem lá, como é que estas quotas se vão aplicar às famílias, a todos os títulos de empresas privadas, com a agravante de que os sócios até dormem na mesma cama? Afinal têm capital social para o início da atividade, sede, pessoal a cargo, geram proveitos e pagam impostos, porque não há de um tribunal vir a condená-las por não serem conformes à lei das quotas, se os seus conselhos de administração forem constituídos a 100% pelo mesmo género? Ou, quem sabe, se os cargos intermédios sofrerem do mesmo mal, e a empresa chegar a ponto de ser integralmente constituída por elementos de um só género? O que dirão quando forem condenadas a corrigir a situação no prazo máximo de um ano? Obrigados a ir buscar algum chefe/atrasado mental à bolsa de excedentários.

 

Ah, pois é, depois não digam que não avisei. 

 

Jornalista

 

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comentários mais recentes
Anónimo 19.07.2017

Quando lhe voltar acontecer o mesmo, experimente uma Praia de Nudismo, se quiser pode melhorar ainda com uma pitada de Swing.

Nuno 19.07.2017

As quotas, onde quer que seja, são estúpidas. Mais, os sócios, em empresas com mais de 4 anos, não dormem na mesma cama, toda a gente sabe isso.

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