Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 06 de março de 2018 às 19:58

Não quero ser olhada como vítima

Protesta-se contra os estereótipos de género, mas depois fica-se com a impressão de que há muito quem queira manter vivo o retrato das mulheres como eternas presas e dos homens como predadores compulsivos. 

No instante em que acabei de escrever o título desta crónica, pensei: "Depressa, depressa, Isabel, dedilha já um 'disclaimer' a explicar que lá por teres dito que não queres que as mulheres sejam olhadas como vítimas, não significa, muito pelo contrário, que não estejas preocupada com a violência doméstica, que não te indignem os homens que matam mulheres e, já agora, deixa claro aos que presumem sempre o pior dos outros, ou se limitam a ler apenas os cabeçalhos, que também não és a favor do assédio sexual no trabalho ou fora dele, nem tão-pouco de salários diferentes para trabalhos iguais."

 

Uf, na verdade quando o meu superego, grilo falante ou o que lhe quiserem chamar, acabou de me ditar tudo o que deveria escrever antes sequer de começar a explicar o que me trazia aqui, pensei que o melhor era desistir. Ainda para mais em véspera de Dia da Mulher, altura em que o politicamente correto sobre estes assuntos está ao rubro. Mas inspirei fundo e decidi continuar porque mal estaremos quando as mulheres voltarem a ter de pedir desculpa por exprimirem o que sentem, ou lhes passa pela cabeça.

 

Portanto, aqui vai: preocupa-me, aliás preocupa-me muito, esta teia meio esquizofrénica que parece ter envolvido o discurso sobre as mulheres. Por um lado queremos, e com toda a legitimidade, afirmarmo-nos como pessoas inteligentes, fortes, determinadas, capazes de tudo o que sonhamos e de mais alguma coisa, mas por outro parecemos estar cada vez mais presas a uma postura de vitimização. Por exemplo, cai o Carmo e a Trindade com a representação das meninas como frágeis criaturas, ocupadas em rendas e bordados nos manuais escolares, reivindicando-se que surjam como gestoras, cientistas ou bombeiras mas, simultaneamente, enchem-se páginas de jornais com relatos de mulheres oprimidas e assediadas, incapazes de se livrarem de relações tóxicas, ou de negociarem o ordenado que merecem, como se não tivessem a força ou a resiliência de se imporem e fazerem valer os seus direitos. Protesta-se contra os estereótipos de género, mas depois fica-se com a impressão de que há muito quem queira manter vivo o retrato das mulheres como eternas presas e dos homens como predadores compulsivos. 

 

Esta visão perversa da mulher como um ser indefeso estende-se até à forma como encaramos as mulheres em zonas de conflito como o Afeganistão e o Iraque, denuncia Carolina Marques de Mesquita, investigadora do New America's Better Life Lab. Num artigo da New American Weekly conta como contabilizou as referências que lhes eram feitas nas reportagem do New York Times, Washington Post e Wall Street, concluindo que "expõem o estereótipo das mulheres como eternas vítimas - pessoas que, tal como as crianças, têm de ser protegidas porque são inocentes e nada têm que ver com o conflito nos seus países." Em 60% das notícias no Wall Street Journal, por exemplo, a palavra "mulher" surgia sempre emparelhada com "criança", e só 5% das notícias relevavam mulheres envolvidas política e socialmente, nomeadamente nas negociações de paz, quando, na realidade, são muitas a tê-lo apesar dos constrangimentos impostos por aqueles regimes. A investigadora ressalta, ainda, que se é positivo o alerta para a utilização da violência sexual como arma de guerra, o exclusivo enfoque neste crime pode objetificá-las, deixando-as ainda mais invisíveis. Por isso, neste dia 8 de Março vamos abrir os holofotes sobre a força das mulheres.

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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