Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 27 de junho de 2017 às 18:58

Porque é que as vítimas se sujeitam ao abuso dos jornalistas

Porque é que as vítimas de Pedrogão Grande aceitaram os abusos de alguns jornalistas? Esta é uma das perguntas que se impõe.

Parte I. Desesperei com as entrevistas às vítimas da tragédia de Pedrógão Grande. Talvez a maioria das pessoas não conheça o Código Deontológico dos Jornalistas, o que não deve complexá-los já que tanta gente que exerce a profissão o parece ignorar, mas o artigo 9.º é claro quando afirma: "O jornalista obriga-se, antes de recolher declarações e imagens, a atender às condições de serenidade, liberdade e responsabilidade das pessoas envolvidas." 

 

Considerar que quem estava a viver aquele absoluto terror, que quem acabava de assistir à morte de familiares e amigos preenchia estes requisitos, é indefensável. E revoltante. Por inconsciência, ou na ânsia de provocar emoções fortes, confundida com um suposto interesse nacional, houve quem avançasse sobre elas pedindo-lhes que revivessem o pesadelo, filmaram-se cadáveres, interrogaram-se até pais que perderam os filhos nas mais dramáticas das circunstâncias. Desfilaram abusos durante horas, dias e atrevia-me até a dizer semanas, abusos que, aliás, os autores implicitamente confessavam de cada vez que descreviam o pobre entrevistado como estando "visivelmente abalado e em estado de choque".

 

Perante tudo isto uma pergunta impõe-se: porque será que as vítimas não mandam os jornalistas bugiar? Porque é que não os insultam, não lhes dizem que se metam nas suas vidas, não pedem respeito e reserva? Porque estão em choque, desconectados da realidade, como se tudo aquilo não passasse de um filme (ou de um pesadelo, do qual acreditam que vão acordar), sim, mas também porque se interiorizou a ideia de que os jornalistas têm direito a inquirir e a obter respostas. Como se fossem polícias ou juízes. Permanece a ideia de que é inadmissível fechar-lhes a porta na cara. O epitáfio inscrito em tantas notícias do "não quis prestar declarações", ou "escusou-se a responder", não surge como a constatação de um direito absoluto de qualquer cidadão, mas como uma admissão de culpa. Nesta tragédia, por exemplo, certamente muitas das vítimas sentiram que se não explicassem detalhadamente ao jornalista o que fizeram para salvar as famílias, se não se justificassem, passariam a ideia de cobardia ou insuficiência. Temiam o veredicto dos Media. Provavelmente, precisavam simultaneamente da sua absolvição.

 

Parte II - Infinitamente menos grave, mas também espantosa foi a catadupa de perguntas francamente idiotas a "especialistas", e nem tanto. Se é óbvio que escrutinar as causas de uma tragédia é função primordial do jornalista, compete-lhe colocar questões pertinentes e, já agora, dando voz a quem pode contribuir seriamente para a discussão. Mas quando não é isto que acontece, porque é que os inquiridos não denunciam o vazio do que lhes é perguntado, ou em não sendo peritos no assunto, não o declaram abertamente?  

 

Franscesca Gino e Alison Wood Borroks, investigadoras da Harvard Business School, dedicaram-se a perceber este fenómeno. A conclusão a que chegaram é a de que "As pessoas são muito egocêntricas e acham-se qualificadas para dar conselho sobre quase todos os assuntos!". Na prática, explicam as investigadoras, são raras as que admitem não ser peritas em tudo e mais alguma coisa, e só essa ínfima minoria desqualifica quem lhe faz perguntas "estúpidas" (o termo é delas). Perceberam também que todos nós somos susceptíveis à lisonja, valorizando quem nos pede conselho, ou seja o suposto especialista, fica eternamente grato ao jornalista que ligou sobre eles os holofotes. Está tudo explicado.

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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