Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 20 de março de 2018 às 20:16

Só um tipo muito estúpido é que tem uma empresa

O empresário é um alvo colocado à mercê dos milhares de institutos, direções, autoridades, departamentos e repartições criados para lhe infernizar a vida. Decididamente, fazemos bem em desconfiar de quem se mete nisso.

Não faltam estudos, documentos e análises a confirmarem que o nível de instrução dos empresários portugueses é uma autêntica desgraça, com escolaridade inferior à média dos trabalhadores, na maioria dos casos não ultrapassando o ensino básico.

 

Muitos acreditam que reside aí uma das justificações para a baixa produtividade nacional. O problema não estaria nos trabalhadores, mas em quem os comanda, que em muitas das vezes não percebe patavina do que anda a fazer e sabe tanto de gestão e estratégia como eu de medicina quântica. Reforça a tese a percepção que gostamos de alimentar (não interessa nada se certa ou errada) de que os "nossos" emigrantes são umas estrelas da companhia "lá fora", enquanto se encostam e fazem ronha "cá dentro".

 

E embora nenhum desses estudos esclareça se as limitações dos empresários decorrem do facto de não terem tido instrução capaz ou se é por serem tão limitados que não conseguiram ir mais longe na escola, alguma coisa se passa. Porque se analisarmos as complicações que decorrem para a vida de um qualquer indivíduo a partir do malfadado dia em que lhe passou pela cabeça trocar a estabilidade do emprego para se lançar numa aventura empresarial, concluímos que, realmente, é necessária uma dose elevada de estupidez para alguém ser empresário neste país.

 

No início, parecem só facilidades. Basta pôr um emblema de start-up na lapela para ser convidado para conferências e "sumits", recebendo elogios e palavras de encorajamento de governantes e dando entrevistas a torto e a direito, que mais agravam a inconsciência do logro em que está metido.

 

É apenas quando a poeira assenta e é entregue a si próprio que começa a perceber que o empresário é basicamente um alvo colocado à mercê dos milhares de institutos, direções, autoridades, departamentos e repartições, cuja principal ocupação é dificultar a vida às empresas e seus proprietários, com regras, decretos, determinações e normas cujo integral cumprimento acarreta a necessidade de contratar advogados, contabilistas e técnicos vários, arrasando logo à partida o equilíbrio económico do negócio.

 

Os poucos que conseguem ultrapassar esta fase e sobreviver são irremediavelmente acometidos do "trauma postal". Trata-se de uma síndrome que determina o aumento do nível de ansiedade à chegada do correio perante a inevitabilidade de o mesmo lhe trazer a notícia de uma qualquer infração às 5.327 regras a que está obrigado, acompanhada do anúncio de coimas e multas aplicáveis e ameaças várias de condenação por crimes hediondos.

 

Por fim percebem que não escapam a essas investidas, por muito que tentem ser rigorosos e invistam tempo e dinheiro a procurar minimizá-las. E compreendem também que não podem contrariar a máquina controladora que deles se alimenta, e que parte do pressuposto de que não passam de malandros decididos a ganhar dinheiro à custa dos outros, ou seja, cidadãos duvidosos que têm de ser tratados com rédea curta.

 

E, no fundo, não é que têm razão? Se fossem pessoas inteligentes e bons chefes de família, tinham-se ficado pelo trabalho por conta de outrem, como a maioria de nós. De facto, se andam a brincar às empresas é seguramente porque preparam alguma - é penalizá-los por conta, já!

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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Manuel Jornalista Há 1 dia

Quando se faz jornalismo superficial, depois saem artigos estupidos como este. De facto há muitas regras para quem tem uma empresa, mas chamar herói ao empresário seria mais sensato, parece-me que a jornaleira tem problemas com o patrão. Para ser levada a sério tem que aprofundar os seus artigos.

Anónimo Há 6 dias

A sra e uma esclarecida. Ja vimos o que os Gestores de topo deste Pais, tem feito desde 1974. E so exemplos. Neste ultimos 10 anos entao e uma maravilha. Nao haja ate quem queira comprar canudos e faca cursos num fim de semana. Desde quando e que e necessario tirar um cursos superior para constituir ou ter uma empresa? Ja viu os estados unidos? Os principais milionarios la sao licenciados? E Em Portugal? Os grandes empresarios, nao os chulistas e empresarios dos emprestimos bancarios dos esquemas, tinham licenciaturas se calhar em engenharia nuclear. Opa va dar banho ao cao

Anónimo Há 1 semana

Minha Cara. Isso e verdade para quem produz. Para quem serve de porta avioes, isto e, de revendedor a coisa ate nem esta mal. Isto e assim desde sempre na Tuga. Qual a duvida? Para alem das despesas de investimento, do trabalho, dos salarios, dos impostos, das materias primas, da qualidade do produto, ainda tem os impostos. Um revendedor nao tem estas preocupacoes. Assim empresas tipo trading e sempre a abrir. Sao os njovos tempos. A indianizacao da nossa sociedade. Falta pouco para andarmos todos a abanar a cabeca e usar sari

Assombrado Há 2 semanas

Chiça! É muito melhor andar por aí a vender "bitaites" mandar uns palpites que nem aquecem nem arrefecem e ganhar balúrdios à custa de cunhas, influências, contactos que o Zé paga tudo. Senhora, vá tratar de vida. Não tem mesmo que fazer?!

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