João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 24 de julho de 2018 às 19:43

A Alemanha de fisga em riste

A castração militar de Berlim e a inépcia política da coligação de Merkel põem cada vez mais em causa a segurança europeia, transida entre a tentação isolacionista norte-americana e o revanchismo impune da Rússia putinista.

Na ressaca das tiradas arrogantes de Trump na cimeira da NATO, em Bruxelas, uma maioria de alemães crê que a Europa pode assegurar sozinha a sua defesa e dispensar o contributo militar dos Estados Unidos, segundo sondagem apresentada pela RTL/ntv.

 

Cerca de 56% dos inquiridos pelo Forsa, o principal instituto de sondagens alemão, considera que a Europa (equiparada ao bloco UE) tem condições para se defender e apenas 37% admite como necessária a ajuda militar norte-americana.

 

A ilusão é comum aos cinco estados da antiga RDA comunista (60% dispensa os EUA) e aos demais 11 länder ocidentais (55% presume a autosuficiência militar europeia), de acordo com o inquérito divulgado terça-feira pelo canal noticioso de Colónia.

 

Defesa à custa de outrem

 

O desinvestimento na defesa -  as despesas cifravam-se na ordem dos 3% do PIB na década de 80 - foi sistematicamente promovido por conservadores, social-democratas e liberais após a queda do Muro de Berlim, em 1989, e gerou um caldo de cultura paradoxal.

 

O pacifismo serôdio que nos anos do pós-guerra campeou na Alemanha Ocidental, em confronto com conservadorismos iníquos e comprometidos com heranças autoritárias e nazis, acabou por convergir com o repúdio pelo militarismo comunista no Leste depois da reunificação.

 

A chegada de Trump à Casa Branca acentuou, recentemente, reticências anti-americanas e sucessivas sondagens registam níveis recorde de apreciações negativas dos Estados Unidos e condescendência crescente para com a Rússia.

 

A política de défice zero, acumulação de excedentes orçamentais e de balança de trasnsações correntes, levada ao paroxismo pelo democrata-cristão Wolfgang Schäuble no ministério das finanças entre 2009 e 2017, redundou, entretanto, num descalabro militar.

 

A Bundswehr é, presentemente, inoperacional, disfuncional, e representa um risco de segurança para a Alemanha e a Europa.

Um relatório do Ministério da Defesa para o Bundestag assinalava limitadíssima prontidão em 2017: só 39 de 128 caças Eurofighter, 3 de 13 fragatas ou 105 de 224 tanques Leopard 2 podiam, por exemplo, ser mobilizados de imediato para combate.

 

Fardamentos, tendas, peças sobresselentes constam de listagens de insuficiências logísticas, enquanto a falta de helicópteros condiciona o treino e leva a caducarem licenças de pilotos.

 

Faltar ao prometido

 

As despesas de defesa para 2019 atingem os 42,9 mil milhões de euros (1,31% do PIB) e as previsões orçamentais indicam que a Alemanha não cumprirá o compromisso assumido há quatro anos na cimeira da NATO em Newport, no País de Gales, de chegar aos 2% em 2024.

 

A ministra da defesa, a democrata-cristã Ursula von der Leyen, tão pouco tem condições para aumentar os efectivos da Bundeswehr dos actuais 180 mil para 198 mil em 2024.

 

Fica por concretizar, assim, a ambição de Ursula von der Leyen de dotar as forças armadas alemãs de capacidade para assegurar em simultâneo a defesa nacional, participar em missões de paz no estrangeiro e cumprir compromissos de defesa com a NATO.

 

A constituição de uma força europeia autónoma de defesa proposta por Emmanuel Macron, a par da NATO, é, ademais, inviável por falta de competências da parte alemã e ausência britânica.

 

A Alemanha falha aos compromissos e alimenta a ilusão de que defesa e segurança são coisa de somenos.         

          

Jornalista

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