João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 21 de agosto de 2018 às 19:55

Erdogan feito lixo

Recep Erdogan encontra-se agora na fatal condição de clamar contra inimigos da Turquia e de Alá quando só um empréstimo de urgência do FMI pode evitar a bancarrota.

As reviravoltas da política turca têm sido tão frequentes e bruscas que levam a perder de vista como Erdogan chegou a primeiro-ministro na ressaca do caos económico e financeiro de 2001, impondo reformas radicais apoiado num regaste do FMI, na expectativa de adesão à União Europeia e na aliança política com George W. Bush.

 

Entronizado Presidente com plenos poderes - tutelando militares, juízes e o Banco Central -, Recep Erdogan encontra-se agora na fatal condição de clamar contra inimigos da Turquia e de Alá quando só um empréstimo de urgência do FMI pode evitar a bancarrota.

 

A Comissão de Relações Externas do Senado de Washington manifesta-se, contudo, contra financiamentos do FMI ou do Banco Mundial à Turquia, enquanto Ancara não ceder a exigências do Presidente Trump, nomeadamente a libertação de um pastor protestante norte-americano detido na sequência da tentativa de golpe de Estado contra Erdogan de Julho de 2016.

 

O pastor e a lira        

 

Andrew Brunson, residente em Izmir desde 1993, foi preso em Outubro de 2016, acusado de envolvimento com os islamitas de Fethulah Gülen, radicado na Pensilvânia desde 1999, separatistas curdos e a CIA.

 

Ancara começou por tentar servir-se de Brunson para levar Washington a extraditar Gülen, o antigo aliado islamita com quem Erdogan rompeu em 2013.

 

Em vão e a negociação foi-se complicando.

 

A guerra síria é o pano de fundo com divergências estratégicas entre Estados Unidos e a Turquia quanto ao apoio a milícias curdas em luta contra Bashar al-Assad e a aproximação de Ancara a Moscovo depois de em 2015 russos e turcos terem estado à beira de um confronto militar.

 

As arrastadas negociações passaram, entretanto, pela mediação, assumida pela Casa Branca, para a libertação de um turco detido em Israel, mas a via de compromisso acabou por esbarrar em Mehmet Atilla.

 

O vice-presidente do banco Hallbank foi condenado em Maio deste ano, em Nova Iorque, a 32 meses de prisão por lavagem de dinheiro no âmbito de um processo em curso contra a instituição estatal turca por violação das sanções ao Irão. 

 

No mês passado, Brunson passou a prisão domiciliária, mas sem outras concessões da parte de Erdogan, Trump impôs sanções económicas que agravaram uma crise anunciada com veredicto de lixo timbrado pela Fitch, Standard & Poor's e Moddy's.

 

É sintomático, no entanto, que até as controversas agências de "rating" admitam que as previsões negativas se devem, em grande medida, à relutância das autoridades turcas em adoptarem medidas elementares de saneamento económico, designadamente um aumento das taxas de juro.

 

Sem crédito

 

Os 15 mil milhões de dólares de liquidez garantidos pelo Qatar ao Banco Central da Turquia estão longe de chegar para estabilizar o sistema financeiro que nunca encontrará em Moscovo ou Pequim o amparo necessário.

 

Os indicadores económicos e financeiros não são dramáticos, mas as opções políticas viciam tudo.

 

O défice da balança de transacções correntes da Turquia equivale a 7% do PIB.

 

A dívida ao exterior representa 53% do PIB e, do total, as empresas acumularam cerca de 200 mil milhões de euros em compromissos a saldar ao estrangeiro o que equivale a um quarto da riqueza nacional.

 

O colapso da lira compromete refinanciamentos dos sectores público e privado, ameaça disparar a inflação acima dos actuais 16% e, a agravar-se, obrigará alguns bancos da UE a assumirem prejuízos, dentro do aceitável, sendo o BBVA a instituição mais exposta.      

 

O temor ao risco de contágio, por maiores que sejam as diferenças em relação à Tailândia em 1997-1998, cujo bath se encontrava indexado ao dólar, avoluma-se, não obstante, por razões de ordem política e estratégica. 

 

Imprevisíveis e funestos        

                                             

É admissível que Trump e Erdogan apostem ainda mais na via do confronto por desmesura e desvario.

 

Outros membros da NATO, a começar pela Alemanha - principal parceiro comercial de Ancara, albergando, de resto, 3,5 milhões de emigrantes de origem turca -, podem, no entanto, tender a contemporizar com a Turquia.

 

Salvaguardar o acordo de contenção de entrada de migrantes e refugiados na UE  numa altura em que a Turquia conta com mais de 3,5 milhões de desalojados sírios e na iminência de nova leva de foragidos à guerra quando se concretizar a ofensiva de Bashar al-Assad na província de Iblib é algo que contará muito no cálculo de Berlim, que em Setembro receberá Erdogan em visita oficial.

 

Mais reviravoltas estão na calha, mas, desta feita, é bem provável que Erdogan venha a ter de engolir cimitarra e turbante a troco de divisas.

 

Jornalista

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