João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 31 de julho de 2018 às 20:47

Molhar a sopa por conta do Presidente

Édouard Philippe escapou à apresentação simultânea de duas moções de censura na Assembleia Nacional ao fim de 14 meses de governação, mas o prestígio do executivo e do Presidente Emmanuel Macron acabou irremediavelmente manchado.

À direita, Les Républicains alegaram confusão de poderes, incapacidade de exercício de responsabilidades e funções institucionais, enquanto socialistas e comunistas da Nouvelle Gauche, Gauche Démocrate et Républicaine e France Insoumise condenavam impunidade ao mais alto nível e obstrução a inquérito parlamentar.

 

Só por si a maioria de La République en Marche (312 dos 577 deputados) bastava para derrotar a apresentação em simultâneo das duas moções e ultrapassar a censura parlamentar que desde a instauração da V República em 1958 se tem revelado de escassa valia.

 

Georges Pompidou foi, de resto, o único primeiro-ministro a demitir-se, em 1962, após uma moção de censura de deputados socialistas, centristas e da direita desafecta ao Presidente Charles de Gaulle contra o desrespeito das normas constitucionais pelo chefe de Estado ao convocar um referendo para eleição presidencial directa por sufrágio universal. 

 

Esquerda e direita em convalescença do choque provocado pela vitória de Macron em Maio de 2017, conseguiram, por fim, na terça-feira, mostrar iniciativa para explorar o Caso Benalla e aproveitar a falta de popularidade presidencial, cuja taxa de aprovação caiu para 39%, de acordo com sondagem publicada na última edição do Journal de Dimanche.

 

Após polémicas sobre intuitos reformistas contraditórios e sem resultados tangíveis do Presidente e seu executivo, acabaram por ser os abusos de um segurança da confiança pessoal do Presidente a dar a maior machadada à imagem de homem de Estado sério, impoluto, exemplar, cultivada por Macron.

 

Dar-lhes porrada

 

Alexandre Benalla pouco vale.

 

Licenciado em Direito, filho de emigrantes marroquinos, aos 26 anos integrava o corpo de segurança pessoal de Macron, ganhava cerca de 6 mil euros limpos, e gozava de privilégios consideráveis, designadamente o usufruto de um apartamento no Palácio de L'Alma, um anexo monumental reservado a funcionários do Eliseu e seus próximos.

 

François Mitterrand, por exemplo, alojou num apartamento do Palácio, em segredo e por conta do erário público, a amante Anne Pingeot e a filha de ambos, Mazarine, durante a sua presidência entre 1981 e 1995.

 

Em vez de ficar pelo Palácio de L'Alma, Benalla foi às manifestações parisienses do 1 de Maio à cata de desacatos para exercitar os músculos e não hesitou em usurpar insígnias policiais e munir-se de capacete de protecção.

 

Um vídeo apanhou Benalla a agredir dois manifestantes e soube-se logo disso no Eliseu que sigilosamente o suspendeu sem vencimento por 15 dias.

 

As imagens de Benalla a molhar a sopa, na companhia de agentes policiais, foram, contudo, passadas ao jornal Le Monde que as divulgou a 18 de Julho e fez-se silêncio no Eliseu.

 

Macron só se pronunciou sobre o caso seis dias depois numa reunião em Paris com deputados do seu partido e o que transpirou a público caiu mal.

 

O Presidente declarou-se desapontado, traído por Benalla, cuja dedicação apreciava, ironizou negando que fosse amante do segurança, lhe pagasse uma fortuna ou cedesse os códigos do arsenal nuclear gaulês e terminou apontando à imprensa intenções dúbias e falta de legitimidade para criticar um Presidente eleito pelo povo.

 

Na sexta-feira seguinte, Macron acusou numa cerimónia pública os media de propagarem "muitos disparates" e de politizarem "um triste caso pessoal".

 

Um político vulgar              

                         

Ante inquéritos no Senado e Assembleia Nacional, além de investigações da Procuradoria de Paris, ruía a imagem do Presidente soberano capaz de manter um relacionamento distante com os media e impor respeito.

 

Para a gestão de imagem de político de alto gabarito importam, também, os serviços de Michèle Marchand e da sua influente agência Bestimage a quem Macron e sua senhora concederam o exclusivo da promoção nas revistas cor-de-rosa.

 

Trivial como qualquer outro, proclama agora Macron que "a nossa imprensa já não procura a verdade"; assevera que "o poder mediático quer tornar-se um poder judiciário".    

 

Quanto a pormenores vai-se sabendo que Benalla não passava de um operacional influente no círculo mais próximo de Macron, "um chefe de orquestra sob a autoridade do chefe de gabinete" do Eliseu, segundo declarou à comissão de inquérito do Senado o coronel Lionel Lavergne, chefe do grupo de segurança oficial da presidência francesa.

 

Alexis Kohler, secretário-geral do Eliseu, por sua vez, informou a Comissão de que Benalla era coordenador de viagens presidenciais e agente de ligação do gabinete do Presidente com o corpo de segurança oficial.

 

Nada, portanto, a ver com os abusos de serviços paralelos e clandestinos de espionagem e contra-espionagem que De Gaulle ou Mitterrand montaram no Eliseu.

 

Com Macron e Benalla temos, de momento, apenas um trivial caso de encobrimento de abuso e de exasperação presidencial ante críticas nos media.

 

O Júpiter do Eliseu é, obviamente, um político tão vulgar quanto a maioria dos seus confrades. "C' est la vie."

 

Jornalista

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