João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 07 de agosto de 2018 às 22:08

O Irão e a ameaça satânica

A petrolífera Total e o Groupe PSA, liderado por Carlos Tavares, contam-se entre as primeiras empresas francesas a desistir de investimentos no Irão, tal como as alemãs Daimler e Siemens ante a reimposição de sanções norte-americanas.

Airbus, Volkswagen, grupos hoteleiros como Accor e Melia, Bristish Airways, Lufthansa, irão, igualmente, ter de abandonar o Irão ou arriscar sanções e perda de acesso ao mercado do Estados Unidos.

 

As trocas comerciais entre a União Europeia e o Irão que triplicaram após a assinatura do acordo nuclear de 2015, atingindo 21 mil milhões de euros no ano passado, vão cair a pique.

 

Cerca de 16% das importações e 6% das exportações de Teerão envolvem empresas da UE que dificilmente podem contar com garantias legais de Bruxelas para enfrentar a pressão de Washington.

 

O exemplo do BNP Paribas que, em 2014, durante a administração Obama, sofreu uma multa de 8,9 mil milhões de dólares por violação do embargo a Teerão arrepia quanto baste.              

                     

A China que adquire 35% dos 2,4 milhões de barris de crude exportados diariamente pelo Irão, rejeita, por seu turno, reduzir estas importações até 4 Novembro, data de reimposição do embargo de Washington às vendas de hidrocarbonetos.

 

O crude iraniano é para Pequim mais uma carta a jogar na guerra comercial com Washington.

 

Moscovo, por sua vez, afirma não pretender rever projectos de investimento no sector energético iraniano, enquanto Índia e Turquia poderão ter de reduzir as aquisições a Teerão que até final do ano teme ver cair para metade as vendas de petróleo ao estrangeiro.

 

As reservas em divisas de Teerão asseguram apenas cerca de 13 meses de importações e a nova ronda de sanções norte-americanas já levou o rival a entrar em queda livre.

 

E depois chegou Trump

 

A lógica das sanções Trump é contestada pelos demais signatários do acordo de suspensão por quinze anos do programa nuclear militar de Teerão: França, Reino Unido, Rússia, China, Alemanha, UE.

 

O âmbito do acordo é limitado e exclui, designadamente, o desenvolvimento de mísseis de médio e longo alcance potencialmente portadores de ogivas nucleares, mas as provisões do compromisso de Julho de 2015 têm sido respeitadas por Teerão.

 

Os interesses estratégicos de Teerão, em conflito com outras potências regionais - de Israel à Arábia Saudita, passando pela Turquia -, na Síria, Iraque, Líbano, Gaza Iémen, obrigam, contudo, a esforços militares e financeiros cada vez mais pesados.

 

À frustração de expectativas de um dividendo económico do acordo nuclear - em particular a persistência de níveis de desemprego na ordem de 30% entre jovens num país em que precisamente mais de 30% dos 82 milhões de habitantes tem menos de 19 anos - sucedeu o desânimo com a eleição de Trump em Novembro de 2016.

 

Desde então, os decisores políticos iranianos pouco mais puderam fazer do que preparar-se para a denúncia do acordo de Viena que Trump confirmou no passado mês de Maio.

 

Foi neste cenário que, na iminência de cortes de subsídios e investimentos num orçamento de austeridade para 2018-2019, os opositores conservadores do Presidente Hassan Rouhani acicataram manifestações de protesto no final do ano passado.

 

De Mashad, segunda maior cidade do Irão, os protestos contra a corrupção e a alta de preços alastraram a grande parte do país e mobilizaram, inclusivamente, minorias azeris, curdas, árabes, baluchi e turcomenas que representam cerca de 40% da população.

 

Ante a degradação da situação económica, protestos esporádicos tiveram lugar este mês e é certo que a contestação política tenderá a subir de tom.

 

O arco e a flecha

 

Rouhani, reeleito em Maio de 2017, cedo ou tarde traçará armas com os rivais na iminência da sucessão do Líder Supremo - Ali Khamenei tem 79 anos - que polarizará as instâncias de poder clericais, políticas e militares da República Islâmica.

 

A reimposição das sanções de Washington agudizará a contestação a Rouhani e as disputas entre os diversos centros de poder no Irão não sendo sequer de excluir uma eventual denúncia do acordo nuclear por parte de Teerão.      

 

O Grande Satã exige a capitulação de Teerão em todas as frentes face a Israel e rivais sunitas o que limita qualquer negociação.

 

A Casa Branca surge simultaneamente em confronto com europeus, russos e chineses a pretexto do acordo nuclear iraniano.    

   

"Não empunhes o arco sem fixar a flecha" reza um velho provérbio persa, e, em Teerão, num cenário de tensão económica e confrontos políticos, é de esperar que todas as facções tentem impor-se e muitos arrisquem ripostar a Trump por forma desordenada e temerária.

 

Jornalista

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