João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 15 de março de 2016 às 19:50

Tiro e queda 

O Irão e a Síria permitiram à Rússia reentrar nas negociações estratégicas e fugir ao estatuto de pária a que o Kremlin se condenou com a invasão da Ucrânia e anexação da Crimeia.

No final de Setembro, pouco mais de quatro meses após o acordo internacional sobre o programa nuclear de Teerão, Vladimir Putin arriscou intervir militarmente em apoio do regime de Bashar al-Assad.

 

Os bombardeamentos, em coordenação com as forças de Damasco, apoiadas por contingentes iranianos e do Hizballah libanês, permitiram a al-Assad consolidar posições em torno da capital, em Hama e Homs e retomar a pressão sobre Aleppo.

 

Aliados quanto baste

 

Firme nas províncias do litoral de maioria alauíta de Lataquia (onde se situa a base aérea russa de Hmeimim) e de Tartus (única instalação naval do Kremlin no Mediterrâneo), al-Assad, ao recuperar a iniciativa militar, proclamou estar apostado em reconquistar a totalidade do território perdido desde o início da guerra civil há cinco anos.

 

As ambições de al-Assad são, contudo, alheias aos cálculos do Kremlin ao anunciar a retirada parcial do contingente militar russo na mesma altura em que propõe a federalização da Síria e tenta um compromisso com Riade para manter a produção de petróleo ao mais alto nível possível e estabilizar o preço do crude.

 

Os tempos não propiciam aventuras militares em terras longínquas em apoio de aliados volúveis e as agruras soviéticas no Egipto, Iémen e Iraque estão tão presentes nos cálculos do Kremlin quanto o desastre da invasão do Afeganistão.

 

Um aperto

 

A economia russa contraiu 3,7 % em 2015, continuará negativa este ano e só se o petróleo estabilizar nos 40 usd/barril poderá recuperar em 2020 a dimensão equivalente ao PIB de 2014.

 

Livrar-se das sanções impostas pela UE, Washington e demais aliados em retaliação pela invasão da Ucrânia em 2014 é, consequentemente, objectivo do Kremlin, apesar da retórica de auto-suficiência e reorientação comercial para parceiros como a China ou Índia de potencial elevado, equívoco e remoto.

 

Na UE não faltam governos, a começar pela Itália, passando pela Grécia, sem contar conservadores e sociais-democratas da coligação de Angela Merkel, interessados num contributo russo para uma acalmia na Síria que reduza a pressão de refugiados de guerra.

 

 Algo terá de ser dado em troca até porque os Estados Unidos são pouco confiáveis nestas matérias e Obama tem os dias contados.       

                                                                                              

Os Estados Unidos ao recuarem no Verão de 2013 nas ameaças contra al-Assad por utilização de armas químicas abdicaram de mobilizar militar e politicamente as diminutas e divididas frentes de oposição não-jihadistas a Damasco.

 

O que resta da Síria

 

 A anarquia da Líbia, em crescendo desde a morte de Kadafi em Outubro de 2011, muito contou para inibir Washington e alargar a margem de manobra de islamistas e jihadistas financiados pela Arábia Saudita e Qatar.

 

Forças jihadistas ganharam vantagem à custa de islamistas sunitas, sobretudo dos Irmãos Muçulmanos, e para temor maior das dispersas minorias cristãs ou dos druzos concentrados na província sul de Suwaida, contígua à Jordânia.    

 

O Nordeste dominado por nacionalistas curdos em trégua tácita com Damasco subsiste, por sua vez, em guerra aberta com a Turquia e confronto com árabes sunitas e turcomenos.

 

No resto do Norte, milícias sunitas estão em vantagem com o Califado Negro de al-Bagdadi estendendo o seu domínio de Palmira e Raqqa às zonas desérticas e petrolíferas contíguas ao Iraque, onde domina Mosul sob a ameaça da iminente derrocada da barragem do rio Tigre.

 

Ganhos de Moscovo

 

O apoio de Moscovo a Damasco provocou um conflito grave com Ancara, com reflexos no Cáucaso e na Ásia Central, e de pouco tem valido para conter  a ameaça jihadista entre as comunidades muçulmanas russas (cerca de 7% da população) em especial no Daguestão, Inguchétia e Tchetchénia. 

 

A força aérea russa limitou o uso de bombas de precisão por economia de custos (ignorando acrescidas mortes de civis), testou alguns aparelhos de última geração e limpou a péssima imagem que deixara na guerra de 2008 contra a Geórgia cumprindo rotinas operacionais regulares e sustentadas com escassas baixas.

 

Ganha a aposta militar, é pouco verosímil aventar como eventual solução para partilha do poder o modelo da Bósnia-Herzegovina saída em 1995 das guerras da Jugoslávia.  

 

As duas entidades autónomas (dez cantões da Federação da Bósnia-Herzegovina e República Sérvia) e distrito autónomo de Brèko, agregando essencialmente três grandes grupos étnicos (bósnios muçulmanos sunitas, sérvios ortodoxos e croatas católicos) constituem um arremedo disfuncional de Estado.

 

A paz, contudo, subsiste imperfeita e ténue na Bósnia-Herzegovina e serve para obrigar al-Assad ou quem lhe suceder entre os alauítas a aceder a negociações, tendo em conta os objectivos de Moscovo a quem interessa que na Síria os heterodoxos xiitas apoiados por Teerão sirvam de contrapeso às monarquias sunitas.   

    

Cinco meses e meio de ofensiva aérea russa na Síria não foram tiro e queda como vende agora a propaganda do Kremlin, mas serviram os intentos políticos.     

 

Jornalista

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