João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 03 de julho de 2018 às 20:08

Trump ameaça a China 

As crescentes restrições nos Estados Unidos a investimentos chineses em sectores estratégicos e a transferências de tecnologia de ponta alimentam, entretanto, polémica nos círculos do poder.

É sintomático que o nervosismo dos agentes políticos e económicos seja muito mais evidente na China do que nos Estados Unidos a dois dias da imposição de pesadas taxas aduaneiras na primeira grande salva proteccionista da guerra comercial declarada a Pequim por Donald Trump.

 

A República Popular retaliará, sexta-feira, contra taxas de 25% sobre importações chinesas no montante de 34 mil milhões de dólares com idêntico aumento sobre o equivalente em vendas norte-americanas - do crude à soja -, mas terá maior dificuldade em ripostar a futuras punições alfandegárias.

 

Se Trump concretizar a ameaça de a curto prazo subir taxas abarcando importações no montante de 450 mil milhões de dólares, não será conveniente para Pequim prosseguir a escalada.

 

Dirigentes chineses admitiram, assim, adoptar "medidas qualitativas" no âmbito dos diferendos com Washington para reduzir o défice comercial (505,5 mil milhões de dólares em vendas aos Estados Unidos em 2017 e 129,9 mil milhões em importações).

 

Desde logo, Yi Gang, governador do banco central, veio a público esta semana acalmar receios sobre a volatilidade nas bolsas de Xangai e Shenzhen que registaram as quedas mais abruptas desde Janeiro de 2016, afirmando estarem sob controlo os riscos financeiros.

 

Na mesma altura em que o yuan atingiu o valor mais baixo face ao dólar dos dez últimos meses, o vice-governador Pan Gongsheng afastou, por sua vez, a opção de uma desvalorização para maior competitividade das exportações, prometendo a manutenção da taxa de câmbio num "nível razoável".

 

Uma tendência de desaceleração na actividade industrial por quebra da procura no mercado interno e das exportações é detectável nos indicadores do segundo trimestre, causando receios quanto à viabilidade de um crescimento económico em 2018 idêntico aos 6,5% registados no ano passado.

 

A diminuição do investimento e aumento das restrições ao crédito, por seu turno, é devida, em grande parte, aos esforços de Pequim para conter défices orçamentais e endividamento dos governos regionais, entidades locais e empresas estatais.

 

As crescentes restrições nos Estados Unidos a investimentos chineses em sectores estratégicos e a transferências de tecnologia de ponta alimentam, entretanto, polémica nos círculos do poder.

 

O reconhecimento da inferior capacidade e competitividade tecnológicas da China face aos Estados Unidos é assumida, à revelia da propaganda oficial, como factor negativo na eventualidade de uma guerra comercial em larga escala.

 

O predomínio do dólar no sistema financeiro global é, também, referenciado como constrangimento fulcral a médio prazo dado o yuan representar cerca de 1% dos pagamentos internacionais, enquanto as transacções em moeda norte-americana ultrapassam os 40%.

 

Como maior investidor em obrigações do Tesouro norte-americano - 1,19 triliões de dólares -, à China pouco convém pressionar Washington através de vendas que desestabilizem os mercados numa conjuntura em que se reduzem as reservas em divisas de Pequim e aumentam os compromissos com serviço de dívida.     

 

A maior parte das grandes empresas exportadoras chinesas não conta, por outro lado, com a possibilidade de transferir produção para fábricas operacionais em países não abrangidos pelo aumento de taxas aduaneiras.

 

A opção da Harley Davidson, de Milwaukee, em fabricar nas suas unidades europeias modelos de motos anteriormente produzidos nos Estados Unidos para escapar às retaliações da UE não está ao alcance de exportadores chineses como, por exemplo, a SAIC Motor, de Xangai.

 

A rede logística das empresas chinesas noutros países será, contudo, fortemente afectada, tendo em conta que, segundo cálculos do The Economist, 30% do valor das exportações chinesas para os Estados Unidos é gerado por fornecedores estrangeiros.

          

A dinâmica de escalada proteccionista começa, por fim, a ser vista em Pequim como um dos vectores de uma estratégica global de Washington para conter o chamado "crescimento pacífico" da China e, consequentemente, as contramedidas implicam as dimensões militares e diplomáticas.

Tal como os governos da UE, do Canadá e México, também os comunistas de Pequim têm a noção de que vai demorar a fazer-se sentir sobre os consumidores norte-americanos o efeito das retaliações visando alimentar a contestação de lóbis prejudicados por taxas aplicadas a bourbon, jeans ou às motos Harley Davidson.

 

Até às eleições de Novembro, é muito provável que Trump prossiga uma escalada que, sem salvaguardas para regulação de conflitos através da Organização Mundial do Comércio, prejudicará fortemente as trocas comerciais e os fluxos internacionais de investimento.

 

Na China, há a percepção de que o país e o regime arriscam pagar uma factura pesada nestas guerras comerciais.

 

Conter os perigos da ofensiva de Trump obriga Pequim a jogar noutros tabuleiros que vão muito além da magna questão da balança comercial.

 

Jornalista

pub