João Quadros
João Quadros 13 de fevereiro de 2015 às 09:57

Mais uma carta à Grécia

Querida Grécia, escrevo esta carta sem ser segundo as regras do novo acordo ortográfico porque sei que vocês também gostam de não respeitar as regras.

 

Querida Grécia,

 

escrevo esta carta sem ser segundo as regras do novo acordo ortográfico porque sei que vocês também gostam de não respeitar as regras.


Ia a escrever - espero que estejam todos bem -, mas também cá tivemos a troika.


Se lhe escrevo, Querida Grécia, é por uma razão muito simples. Não, não venho cobrar nada. Espero que não tenha enviado esta carta para o lixo. Juro que não sou familiar do Duarte Marques, nem conheço quem seja e assuma.


Escrevo-lhe para pedir desculpa pelo nosso Presidente, pelo nosso Governo e por um sujeito de pavilhões auriculares extensíveis que trabalha para a televisão do Estado. Sei que o que peço é demasiado. Sei que não me pode perdoar tudo, mas podemos negociar.


Penso, Querida Grécia, que serão sensíveis aos nossos argumentos, tendo em conta o sofrimento a que o nosso povo tem estado sujeito.


Queria começar por lhe pedir desculpa pelo nosso primeiro-ministro. Não. Esse é o Paulo Portas. O nosso primeiro-ministro é o alto. Um que caminha a passos largos para ser como o vosso Varoufakis; infelizmente, só a nível capilar.


Gostava muito que nos perdoasse, pelo menos, metade das coisas horríveis que o nosso PM tem dito sobre si. Mas se acha que as declarações do nosso PM ofendem a sua pátria, lembre-se que ele usa um pin com a nossa bandeira. Como é que acha que nós nos sentimos?! Se ele não usasse o maldito pin, talvez passasse por PM da Baviera e não tínhamos de sofrer tanta vergonha.


Quanto ao nosso Presidente, eu podia usar a desculpa de que ele já não está em condições, mas não quero enganar ninguém. Ele sempre foi assim. É uma pessoa horrível, mas somos nós que temos de viver com ele desde pequeninos, Querida Grécia.


Veja que, por exemplo, quando o nosso Presidente da República diz: "Muitos milhões de euros estão a ser tirados dos bolsos dos portugueses para a Grécia", e diz com os dentes todos para percebermos melhor a brutalidade da quantia - "miiiil e cem miiiil milhões" -, é óbvio que é muito ofensivo para vocês. Mas acredite, Querida Grécia, é muito mais ofensivo para nós. Imagine o nosso sofrimento, que ouvimos isto, e tivemos de nos juntar para pagar umas seis vezes mais, com o banco feito por ex-colegas do nosso Presidente. E, Querida Grécia, nunca o vimos vir a público dizer - "saíram seis miiiiiil miiiiiilhões de euros do bolso dos portugueses para o BPN". Ou: "Ganhei umas centenas de miiiiiiiiilhares de euros no BPN que acabaram por sair do bolso dos portugueses".


Por isso peço, Querida Grécia, que nos perdoe pelo menos 80% dos disparates que o nosso Presidente diz. O resto, não peço que nos desculpe. Espero que esqueça com o tempo. Prometo que vamos tentar esquecê-lo primeiro.


Com os melhores cumprimentos,


João Quadros

 

P.S.: Pare de me enviar iogurtes, Querida Grécia. Sou lacto-intolerante e isso não é negociável.

 

 

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TOP 5 Grego

 

1. Assessores de Maria Luís Albuquerque avisam que ministra não vai fazer declarações à imprensa em Bruxelas. Veio "apenas para ouvir" - e novidades?


2. Espírito Santo e Amorim apanhados no Swiss Leaks: mas o maior cliente português é uma milionária desconhecida - Jacinta Leite Capelo?


3. Expresso - Erros na transcrição das escutas de Portas alimentam novas suspeitas de Ana Gomes. No fundo, estas transcrições foram para a Ana Gomes o que Baptista da Silva foi para o Expresso. Mas não lhes tira a razão de fundo.


4. Martin Jäger, porta-voz do ministro Schäuble: "O governo grego deve apresentar uma proposta sobre como as coisas devem continuar". Parece-me que este "como as coisas devem continuar" é um grande resumo da política europeia.


5. Alemanha rejeita pagar reparações da II Guerra Mundial exigidas pela Grécia e diz que não faz sentido - também acho que o facto de os alemães andarem a querer que os gregos lhes paguem o que devem da intervenção da troika faz tanto sentido como mandarem aos israelitas a conta do gás.

 

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comentários mais recentes
CabrãoFodido 31.03.2015

Os israelitas têm de pagar a conta do gás em pré-pago.

MJFreire 17.03.2015

Engraçado, afinal o apelido Silva não é no geral o maior apelido, eureca o maior é Anónimo. Será porque não são de esquerda!

Anónimo 16.02.2015

Não é preciso concordar com as afirmações do nosso Presidente, e é nessa postura que me coloco, para considerar o despropósito do escrito com que o Sr Quadros nos brinda.
Lá porque um Senhor governante, ou um Sr presidente (o que se quiser), tem uma posição descabida, inoportuna, infeliz (o que se quiser), teremos de ir a correr muito agachadinhos fazer festinhas no primeiro siriza que nos aparece à frente ?
Parece que JQ sofre do complexo de "A galinha de minha vizinha é mais de esquerda que a minha".

Anónimo 16.02.2015

Engraçado! O meu comentário desapareceu só porque desta vez não concordei educadamente com o João Quadros! Claro que não foi ele a apagar o meu comentário pois sei que isso é para o lado que ele dorme melhor, mas terá sido alguém que por aqui anda e só gosta de comentários de esquerda. Não me vou repetir, mas no fundo o que eu dizia é que gosto das crónicas do João Quadros pela maneira engraçada como ele as escreve, embora nem sempre concorde com o conteúdo, mas mesmo não concordando gosto da maneira como ele escreve. Mas desta vez não só acho o conteúdo muito contrário ao meu sentimento (totalmente antagónico), também não encontrei qualquer parte do texto que tivesse graça. Recuso-me a pedir desculpa não tendo feito nada de mal a gente (governo grego) que tem tido um comportamento arrogante e presunçoso. Gente que cospe no prato que come e pede mais comida ameaçando morder a mão de quem lha der. Esta é a minha visão sobre este governo grego e os gregos são responsáveis por o terem escolhido democráticamente. Temos de respeitar a decisão dos gregos ao terem eleito este governo, mas as opções tomadas têm responsabilidades e consequências. Optaram por eleger quem dizia que não queria pagar as dividas, como consequência os gregos têm de aceitar que ficam mais isolados na solução dos problemas. Para a semana cá estarei para ler João Quadors, desejando que regresse às boas crónicas onde ele dá a sua opinião e não tenta falar em nome de uma nação.

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