Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 01 de novembro de 2017 às 16:47

Herança e mortalidade empresarial

Estudos levados a cabo em vários países indicam que apenas 30% das empresas sobrevivem à morte do seu fundador e que só uma pequena minoria de 10 a 15% consegue resistir na terceira geração e tão-somente 5% continuam a laborar na quarta geração.

Esta taxa de mortalidade empresarial seria catastrófica se transposta para a vida humana. Ela leva-nos de volta à questão da meritocracia e acrescenta uma nova questão: a ligação entre o mérito e a herança. 

 

A um empresário dinâmico, empenhado em preservar e expandir o negócio, segue-se normalmente uma geração criada na abundância, educada nas melhores escolas privadas, com estudos universitários nas mais afamadas instituições europeias ou americanas, familiarizada com as elites económicas e políticas, mas sem visão, empenho e capacidade de gestão, o que acaba por levar à ruína a empresa.

 

Em Portugal, vimos o que aconteceu ao império Champalimaud após a sua morte, assistimos em direto ao desmoronar do clã Espírito Santo e ainda no nosso tempo poderemos, com toda a certeza, presenciar outras derrocadas à medida que a morte se encarrega de subtrair do rol dos vivos outros empresários de primeira ou segunda geração.

 

Face às estatísticas e aos exemplos em casa alheia seria de esperar que novas atitudes e novos caminhos surgissem entre os grandes empresários. Mas a verdade é que não é isso que vemos. Por isso não é difícil adivinhar quem serão os próximos a desaparecer.

 

Chegamos neste momento a uma primeira grande conclusão: a herança baseada em laços familiares, ao não ter em conta o mérito, é incompatível com a sobrevivência empresarial. Ela leva rápida e diretamente à ruína da firma.

 

E, no entanto, existem alternativas. A primeira é a passagem para o setor público que, pelo menos na experiência portuguesa, tem demonstrado uma boa capacidade de gestão. Compare-se, por exemplo, o número de empresas públicas problemáticas com o número de empresas privadas que faliram.

 

Assim, nos casos de empresas familiares de média ou grande dimensão, o Estado poderia após a morte ou o afastamento do fundador adquirir, em condições especiais, a posição deste passando a gerir a empresa de modo profissional. Poupavam-se muitos postos de trabalho, evitavam-se descontinuidades e crises na economia nacional, e assegurava-se a continuidade do projeto.

 

Outras opções passam pela profissionalização da gestão, quer por via da dispersão do capital no mercado de capitais quer pela separação entre propriedade e gestão.

 

O que devia ser claramente protegido, como bem mais importante, seria o património económico nacional e a continuidade dos projetos económicos mesmo se em detrimento da herança sanguínea.

 

Por alguma razão, a maioria dos países mais desenvolvidos adota a forma republicana ou quando mantêm a monarquia retira todos os poderes substantivos ao monarca. A governação das nações não é assim tão diferente da governação das empresas.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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