Leonel Moura
Leonel Moura 26 de Fevereiro de 2016 às 00:01

O mérito de Passos Coelho

Passos Coelho disse no Parlamento que é o garante da unidade da esquerda. A declaração é surpreendente. Sobretudo num homem que tem demonstrado não ser capaz de grandes lucubrações e exibe com regularidade um pensamento bastante linear.

Dá ideia de que, por uma vez, ele percebeu a complexidade da realidade. Ou então alguém lhe fez um desenho.

 

De qualquer modo é isso mesmo. Acertou. A direita portuguesa, que ele tão bem representa, não só é o garante da unidade da esquerda como, com a aprovação do Orçamento do Governo de António Costa, conseguiu realizar um inesperado paradoxo. O radicalismo da direita gerou bom senso na esquerda radical. 

 

Pela primeira vez na nossa história democrática, o Partido Comunista votou favoravelmente um orçamento. É um dado factualmente histórico. Mas é mais do que isso. Mostra como a esquerda à esquerda do PS passou de uma atitude de protesto para uma de construção. Mesmo com todas as ressalvas. Mesmo mantendo, com coerência, uma visão distinta e reivindicações próprias. Uma democracia saudável é isso mesmo. E porque o fez? Como foi possível um partido como o Comunista, antissistema por natureza, ter acedido a colaborar numa solução governativa que não é a sua? Pelo contrário, é aliás a de um velho adversário. Só se explica de uma maneira. A direita foi longe demais nos últimos quatro anos. A direita tornou-se num perigo maior já que se propõe ir ainda mais longe se voltar ao Governo.

 

Passos Coelho tornou-se efetivamente no garante da unidade da esquerda. Por motivos fáceis de compreender. Com o argumento de agradar aos mercados, conduziu o país para uma espiral de empobrecimento terminal. Não foi prudente, não procurou o equilíbrio. Como então disse com orgulho e agora desmente, quis ir além da troika. Ou seja, demoliu o tecido social português e aumentou a miséria de uma forma brutal. Em simultâneo, ao se assumir como capataz dos interesses de outros países e dos investidores estrangeiros, vendeu tudo ao desbarato, abdicando do que resta da nossa soberania. O empobrecimento geral aliado à cedência da soberania é uma receita mortal para qualquer país. Porque impede a recuperação económica e condena a uma subserviência a interesses alheios. Não é preciso ser grande patriota ou professor de Economia para entender isto.

 

No tempo da globalização é decisivo pensar o mundo e pensar no mundo. Mas não é menos importante perceber a necessidade de afirmar a diferença e defender essa diferença. Quem cede desaparece. Só quem faz valer o seu potencial, na política, na economia e na cultura, pode sobreviver. Veja-se aliás o que vai sucedendo por essa Europa fora. Onde cada país, apesar da pertença a uma comunidade, tudo faz para manter a sua própria identidade. É que só ela pode acrescentar algo ao Todo. Só ela pode tornar os países indispensáveis.

 

A estratégia de irrelevância e cedência seguida pela direita não é só um erro, é uma investida objetiva contra Portugal. É uma desvalorização do país. Ora é esse ataque aos interesses nacionais que levou a esquerda radical a apoiar um Governo que não é o seu, mas com o qual foi possível estabelecer um acordo de recuperação e defesa da nação soberana. Um dia, quando passar a fase da frustração, a direita vai perceber isto. E vai perceber também que se Passos Coelho é o símbolo, e a prática, da perda nacional, e, por consequência o aglutinador da esquerda, tem de ser removido. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa já o percebeu e, conhecendo-se a sua mecânica, tudo fará para que isso aconteça.

 

É por isso que a declaração de Passos no Parlamento é tão interessante. Por uma vez parece ter percebido o que está em causa. Mas, por outro lado, revela o lado patético do seu empreendimento. Imagina talvez que a "geringonça" da esquerda não vai funcionar e, mais cedo do que mais tarde, irá regressar ao poder e voltar a castigar, eventualmente com ainda mais raiva, os portugueses. Percebeu mal. É que precisamente enquanto ele se mantiver à frente do PSD e das câmaras televisivas que o seguem por todo o lado, a esquerda não vai ceder. Nunca.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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mais votado surpreso1 25.02.2016

Exacto!Vocês ,asquerosos de "esquerda" só se movem por ódio-E no PS também por tachos

comentários mais recentes
Anónimo 01.03.2016

Os quadros deste "artista plástico", autor do texto, são feitos por uns carrinhos computorizados, geringonças com sensor,que fazem desenhos de forma aleatória numa tela instalada no chão.O trabalho não é dele, é das geringonças que ele faz. Apelida aquilo de arte,mas é uma gerigonçada.

5640533 28.02.2016

Realmente o Passos deve ir embora. Não porque a esquerda quer. Pelo bem do PSD.

CUIDADO COM O SURPRESO1 27.02.2016

TRATA-SE DO AVENÇADO DIREITALHA PAGO PARA ANDAR NUMA CORRERIA LOUCA POR TODOS OS CANTOS DESTE JORNAL A DEBITAR A MENTIRA E PODRIDÃO DIREITALHA.

O ANIMAL APARECE COM MUITOS NOMES COMO ECONOMISTA2000,PUPM,MR TUGA,ANÓNIMO E MUITOS OUTROS.

FORA COM O PROSTITUTO

Anónimo 26.02.2016

Nada me surpreende

no comentário do surpreso1. Tou com muita pena de ti, tal é o ódio manifestado à esquerda... perdeste o teu tachito???

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