Leonel Moura
Leonel Moura 30 de novembro de 2012 às 11:24

Unidos na barbárie

Uma votação no parlamento europeu deu, mais uma vez, conta do desfasamento que existe entre os nossos deputados e os seus eleitores.

Uma votação no parlamento europeu deu, mais uma vez, conta do desfasamento que existe entre os nossos deputados e os seus eleitores. Na verdade, pouco se sabe do comportamento destes políticos que pretensamente nos representam em Bruxelas. Mas, quando se descobre o sentido do seu voto em determinadas matérias, fica claro que não merecem confiança. Explico.

Algures na Dinastia Ming, um cozinheiro obtuso decidiu inventar a sopa de barbatana de tubarão. Dados a superstições, os chineses acham que esta mistela lhes dá potência sexual, coisa de que se devem sentir muito necessitados. A raridade do ingrediente fez com que, durante muito tempo, a sopa fosse um acepipe só acessível aos ricos e poderosos. O enriquecimento da China levou, contudo, a um consumo desenfreado, tendo por consequência a quase extinção dos tubarões a oriente. Daí que se tenha começado a pescar esta espécie também nos mares europeus.

A técnica de pesca é atroz. Os tubarões são capturados, cortam-lhes as barbatanas e, ainda vivos, são de novos deitados para a água onde morrem lenta e cruelmente, já que ficam sem capacidade de locomoção.

É neste contexto que o parlamento europeu votou uma lei que proíbe o corte de barbatanas em alto mar. A lei, moderada, nem sequer é contra a pesca destes animais mas obriga a que os mesmos sejam "desmanchados" em terra. Foi aprovada com 566 votos a favor e 47 contra. Ou seja, 47 deputados acham legítima uma tal selvajaria. E quem são eles? Na sua maioria, espanhóis e portugueses. E, nestes últimos, quem votou a favor desta prática vergonhosa? Espante-se. Todos os deputados portugueses, de todos os partidos. Menos um, honra lhe seja feita, o deputado independente Rui Tavares. Sim, Maria de Graça Carvalho, Carlos Coelho, Paulo Rangel, Mário David (do PSD), Capoula Santos, Correia de Campos, Edite Estrela, Ana Gomes, Vital Moreira (do PS), Diogo Feio (do PP), Marisa Matias, Alda Sousa (do Bloco), João Ferreira, Inês Zuber (do PC), votaram em uníssono do lado errado da história e da civilização. Mostraram um raro momento de unidade das várias forças partidárias portuguesas. Só é pena que o tenha sido em defesa da barbárie.

O argumento deste bando de trogloditas é simples. Prende-se com a razão económica. Os pescadores portugueses, coitados, com a nova lei não conseguem carregar tanto tubarão nos seus barcos, quantas barbatanas que é só o que lhes interessa. A defesa de um modo de pesca inqualificável sobrepõe-se a qualquer sentido de ética e decência humana. Estes deputados portugueses deram assim, à Europa e ao mundo, sinal de que somos um povo primitivo, atrasado e insensível a questões fundamentais do nosso tempo. Representam o quê? A mim não certamente. E, estou certo, nem a muitos outros portugueses que já vivem no século 21, alguns dos quais votaram neles.

Temos assim que a mesma razão económica que conduziu à desgraça social que se abateu sobre a sociedade portuguesa e que tantos deles dizem combater pouco tem a ver com reais diferenças de civilização. No fundo, estão todos de acordo no mesmo princípio de exploração dos recursos sem olhar a meios e sem que lhes toque o mais leve sentimento de humanidade. Aqui não há consciência ambiental, não há quem deseje um mundo melhor, quem se preocupe com a devastação que a humanidade provoca nas espécies animais e na própria natureza. Tudo se resume ao vil dinheiro.

De direita e de esquerda, moderada e radical, estamos perante uma classe política que merece o nosso desprezo mais absoluto. Imagino que alguns deles tenham filhos e gostaria de os ver explicar porque defendem que se corte barbatanas a tubarões vivos para gáudio de uns quantos imbecis que se deleitam com tão frívolos petiscos.

Os próprios chineses acabam de banir dos banquetes oficiais a sopa de barbatana de tubarão. Muitos hotéis e restaurantes na China e no Oriente também já o fazem. Pela mão destes deputados mostramos que estamos no fundo da escala da barbárie. É esta a imagem que queremos do nosso país?

Que se engasguem na barbatana é o que sinceramente lhes desejo. A todos sem exceção.


Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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mais votado Vilares 05.12.2012

Leonel Moura, enganou-se. A ata da votação, que pode ser consultada por todos/as, não deixa dúvida sobre a votação (pág 18) das Eurodeputadas ALDA SOUSA E MARISA MATIAS, eleitas pelo Bloco de Esquerda, a FAVOR do FIM do FINNING: https://www.facebook.com/notes/cassilda-pascoal/leonel-moura-enganou-se-unidos-na-barbárie-mas-sem-os-votos-do-be/10151189173363751

comentários mais recentes
Armando 06.12.2012

O problema que Portugal atravessa, prende-se com problemas económicos, mas também e sobretudo, com a falta de valores que é manifesta nos energumenos dos nossos políticos e em grande parte da população. Por isso mesmo eu voto PAN, ou simplesmente não voto e faço-o com muita convicção...

Anónimo 05.12.2012

Leonel Moura, enganou-se. A ata da votação, que pode ser consultada por todos/as, não deixa dúvida sobre a votação (pág 18) das Eurodeputadas ALDA SOUSA E MARISA MATIAS, eleitas pelo Bloco de Esquerda, a FAVOR do FIM do FINNING: em http://www.europarl.europa.eu/sides/getDoc.do?pubRef=-//EP//NONSGML PV 20121122 RES-RCV DOC PDF V0//PT&language=PT Ainda há duas semanas o Site do Bloco de Esquerda Internacional publicou uma noticia sobre a mesma votação: http://www.beinternacional.eu/en/the-week/4056-parlamento-europeu-erradica-qfinningq-da-pesca-ao-tubarao Errar é humano. Leonel Moura errou. No entanto o erro fez com que alguns insultos fossem dirigidos a militantes do BE e que o trabalho exemplar de Marisa Matias e Alda Sousa tenha sido posto em causa. Entre todos/as os/as que acompanham estas áreas, que seja reposta a verdade!

Carlos Antunes 05.12.2012

Este gajo devia era pedir desculpa às deputadas do Bloco, que votaram pelo fim do finning. Errar é humano. Não saber reconhecer que se errou é estúpido.

Fernanda Santos 05.12.2012

Se tivesse a mesma proporção de zelo e cuidado na busca da informação correcta quanto usou de pressa e agressividade em rotular todos os deputados de troglodita, teria que reconhecer sê-lo também. Se se tivesse dado ao cuidado que é próprio de um não troglodita, poderia ter verificado aqui: http://www.europarl.europa.eu/sides/getDoc.do?pubRef=-//EP//NONSGML+PV+20121122+RES-RCV+DOC+PDF+V0//PT&language=PT (página 18) que as Deputadas do Bloco de Esquerda votaram a favor do fim do Finning, sem excepção. Admitindo que não se quis dar ao trabalho de procurar uma base correcta para a sua informação, num documento que até pode ter alguma complexidade (para um troglodita, claro), sempre poderia ter visto aqui: http://www.beinternacional.eu/pt/noticias/4040-parlamento-europeu-erradica-qfinningq-da-pesca-ao-tubarao Quando se usa uma agressividade tamanha o mínimo que se pode exigir é que se esteja certo do que se afirma. É profundamente lamentável, sr. troglodita!

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