Leonel Moura
O partido da falta de chá
24 Janeiro 2014, 00:01 por Leonel Moura | leonel.moura@mail.telepac.pt
Enviar por email
Reportar erro
O Estado não se deve meter na maneira como as pessoas vivem, se são hetero ou homossexuais, se desejam ou não criar uma criança conjuntamente. A menos que exista dano, maltrato ou abuso, que são casos de polícia.

 

Nos Estados Unidos, o Tea Party, cujo nome remete para um evento histórico do século 18, representa a emergência de uma nova forma de extrema-direita. Embora tenha a designação, o Tea Party não é propriamente um partido no sentido da organização ideológica com carta de princípios. Trata-se de uma amálgama de gente que combina ideias muito dispersas, que tanto vão da homofobia à defesa da religião nas escolas, da oposição ao aborto à redução de impostos. Na economia promovem uma espécie de anarquia capitalista em que o estado deixa de ter qualquer função social ou reguladora. O Tea Party é na verdade a face renovada da tendência libertária americana que se exprime contra o estado, a favor da posse de armas, para o povo se defender do governo, e, enfim, do cada um por si.

Por cá não temos um partido do chá e muito menos anarquistas de direita. Mas vai sendo claro que similares ideias vêm alimentando um partido inorgânico com muita falta de chá. Sobretudo dos lados do PSD que deixou definitivamente de ter qualquer coisa a ver com a social-democracia que transporta no nome e é hoje aquilo a que, à falta de melhor, se vai chamando neoliberal. Ou seja, promovendo uma visão do mundo, da política e da economia totalmente dominada pelo interesse financeiro onde as questões sociais e mesmo a própria democracia são uma chatice e um empecilho.

Dou dois exemplos atuais deste tipo de visão e das suas contradições.

A proposta da JSD para realização de um referendo sobre a co-adopção por casais homossexuais contém em si uma mescla de ideias confusas. Para começar este referendo, sobre uma matéria relativamente marginal, desvaloriza a democracia representativa e o papel dos próprios deputados que fazem e votam a proposta. Se não são capazes de resolver este tipo de assuntos no parlamento então para que servem? O referendo pode ser usado, mas só em casos muito excecionais de elevado interesse nacional, como foi por exemplo o caso da perda de soberania com a nossa adesão à comunidade europeia ou, um dia, da criação de um efetivo federalismo europeu. Referendar meras questões de comportamento e cultura não é certamente uma boa ideia. Os partidos e os movimentos cívicos existem para isso.

Por outro lado, ao mesmo tempo que esta direita defende uma menor intervenção do estado nas questões sociais advoga uma ingerência abusiva do mesmo em matérias íntimas. O estado não se deve meter na maneira como as pessoas vivem, se são hetero ou homossexuais, se desejam ou não criar uma criança conjuntamente. A menos que exista dano, maltrato ou abuso, que são casos de polícia, ao estado não compete definir uma espécie de moralidade comportamental. Ainda mais num mundo e num tempo onde as fronteiras da regra se vão esbatendo.

Interessante também, pelo que denota de ignorância e arcaísmo, a declaração de Pires de Lima, ministro da Economia, sobre a necessidade de apoiar a investigação científica, mas desde que esta faça "a diferença no mercado devolvendo à sociedade o investimento" realizado. Trata-se de uma visão utilitária da ciência que só pode dar os piores resultados.

O objetivo da ciência não é o lucro, mas o conhecimento. À partida, a investigação não pode estar sujeita à garantia de resultados práticos, pois só dessa maneira é possível aprofundar o saber fundamental. Se deste for possível retirar alguma utilidade melhor, mas tal não pode ser uma condicionante. Aliás, a aplicação da ciência chama-se tecnologia, pelo que a confusão é evidente.

Esta visão representa um enorme retrocesso civilizacional. Se fosse seguida por outros não teríamos, por exemplo, a exploração espacial, ou o Grande Colisionador de Hadrões da Suíça que custou mais de 3 mil milhões de euros para fazer colidir partículas elementares. Na realidade, para vender cerveja o que interessa saber se existe realmente o Bosão de Higgs?

Enfim, o partido da falta de chá exprime com regularidade ideias simples, na verdade simplistas, que não servem elas mesmas para nada. Ideias inúteis que só nos puxam para baixo e para o atraso.

Artista Plástico

Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

Enviar por email
Reportar erro
Seguir Autor