Luís Todo Bom
Luís Todo Bom 08 de janeiro de 2017 às 18:15

A vertente atlântica de Portugal

No discurso oficial, Portugal tem uma vertente europeia e uma vertente atlântica, estando as duas inter-relacionadas, no sentido do incremento da importância geoestratégica e da competitividade do nosso país.

A nossa relevância europeia estaria ligada à nossa vertente atlântica, podendo Portugal funcionar como porta de entrada na Europa, para os países da frente atlântica, e a nossa intervenção atlântica seria reforçada pelo facto de integrarmos a União Europeia, funcionando Portugal como plataforma de investimentos e movimentos comerciais europeus para os países africanos e latino-americanos.

 

A vertente europeia do nosso país está presente, todos os dias, na vida dos cidadãos e das instituições nacionais:

 

- Nas relações com os países da União Europeia e com as instituições europeias, em particular com a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu;

 

- Na intervenção política, económica, social e militar, no âmbito da Europa;

 

- Nos fluxos comerciais e de investimento entre os vários países europeus;

 

- Nas discussões sobre política orçamental, política social e de desenvolvimento económico e social da Europa;

 

- Nas análises e intervenções sectoriais, no âmbito da indústria, energia, ambiente e agricultura europeias.

 

E a vertente atlântica?

 

É praticamente inexistente.

 

A relação com os países da CPLP - Comunidade de Países de Língua Portuguesa é frágil, superficial, ineficiente e irrelevante.

 

As relações económicas e empresariais, entre Portugal e o Brasil, têm uma dimensão reduzida, completamente desajustada à dimensão e interacção potencial entre os dois países.

 

A relação com Angola tem um comportamento irregular, dependendo, fundamentalmente, da situação económica daquele país: Portugal aproxima-se de Angola quando a economia angolana está pujante, e ignora este país nas suas situações de dificuldade e depressão económica.

 

As relações com Guiné, Cabo Verde, S.Tomé e Moçambique apresentam o mesmo tipo de irregularidades temporais.

 

A CPLP não funciona como uma rede integrada de cooperação interna e de afirmação externa coerente, coordenada e eficiente, que lhe permita ter um peso relevante no mercado global.

 

O senhor primeiro-ministro apresentou, recentemente, uma proposta sobre a liberdade de residência dos cidadãos da CPLP. É uma boa iniciativa, mas que contará com a oposição dos diplomatas portugueses, pelo que não avançará.

 

Aliás, este ano, Portugal abdicou de ocupar o lugar de secretário-geral da CPLP, que lhe pertencia, nos termos acordados de rotação entre os países fundadores, não aproveitando um momento de ouro para dinamizar aquela organização, numa situação única na História recente destes países, em que os três países de maior dimensão económica - Brasil, Portugal e Angola - se encontram, em simultâneo, numa situação de crise económica.

 

Sem a vertente atlântica, a irrelevância de Portugal, no contexto europeu, manter-se-á.

 

Todos nós, portugueses, que temos uma vivência expressiva e cumulativa, ou mesmo duplas nacionalidades, com outros países atlânticos, pertencentes à CPLP, assistimos a esta realidade, com uma enorme tristeza.

 

Professor Associado Convidado do ISCTE

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