Luís Todo Bom
Luís Todo Bom 01 de maio de 2016 às 17:26

Cavaco Silva na economia portuguesa

A história encarregar-se-á de colocar no seu devido lugar a indiscutível influência de Cavaco Silva no desenvolvimento sócio-económico do nosso país.

Declaração de interesses: fui SE da Indústria e Energia do X Governo e vice-presidente da CP Nacional do PSD, por si presidida.

Optei, no entanto, há cerca de 20 anos por actividade empresarial privada com uma participação partidária residual.

 

Cavaco Silva venceu cinco eleições em Portugal, quatro com maioria absoluta e uma com maioria relativa, apesar de contar, invariavelmente, com uma opinião publicada desfavorável.

 

Provou que não existe uma correlação directa entre a opinião e avaliação dos portugueses e a opinião veiculada pela comunicação social.

 

Manteve, sempre, inalterado o seu estilo de governante: austero, rigoroso, pouco expansivo, com um conhecimento detalhado dos dossiês e dedicação à causa pública.

 

Sendo humano, teve, certamente dúvidas, decisões discutíveis e declarações menos felizes.

 

A afirmação que lhe é atribuída "nunca me engano e raramente tenho dúvidas" é, muito provavelmente, um mito urbano.

 

A evolução das estruturas económicas e sociais do nosso país, durante os dez anos em que foi primeiro-ministro, foi notável.

 

A acusação da preferência pelo betão é incompreensível. Como se fosse possível desenvolver um país atrasado, com carências generalizadas, sem a construção de infra-estruturas físicas - estradas, escolas, hospitais, habitações, escritórios…

 

A sua preocupação pela competitividade da economia portuguesa foi uma constante.

 

O PEDIP - Programa Específico para o Desenvolvimento da Indústria Portuguesa, em cuja elaboração da primeira versão participei activamente, é a prova visível.

 

O processo de privatizações e de abertura dos sistemas fechados da energia, telecomunicações, comunicação social e sistema financeiro aproximaram o país do modelo europeu.

 

A erradicação das barracas em Lisboa e no Porto, com o apoio de fundos europeus, foi outra acção estrutural. Não há sistema educativo que resista, com crianças a viverem em barracas.

 

O acompanhamento das variáveis macroeconómicas do país e o seu equilíbrio, em função da dimensão económica e social do país, esteve sempre presente. O artigo "O Monstro" foi um grito de alerta, que infelizmente não foi ouvido e que está na base da actual situação de endividamento e asfixia financeira do país.

 

Por ironia do destino, teve de conviver com a fase mais agreste do "Monstro", nos dois mandatos mais difíceis que algum Presidente da República enfrentou até hoje.

 

Teve de manter e garantir a estabilidade social, política e institucional, com um programa de resgate muito agressivo para toda a sociedade portuguesa, que originou um aumento, sem precedentes, do desemprego e da pobreza e a incompreensão generalizada dos portugueses.

 

E encarou esta nova situação com a mesma atitude: presente, austero, tecnicamente rigoroso, institucional, empenhado, "supportive".

 

Depois de passar a espuma do momento, quando se avaliar de uma forma desapaixonada o papel de Cavaco Silva, verificar-se-á a justeza da grande maioria das suas decisões, avisos, recomendações e alertas.

 

E perceber-se-á também como, após o "betão", o "coração" e a "paixão pela educação" deixaram o país num pântano e como a desregulação das contas públicas e do endividamento externo estrangularam o crescimento do país.

 

A história encarregar-se-á de colocar no seu devido lugar a indiscutível influência de Cavaco Silva no desenvolvimento sócio-económico do nosso país.

 

Professor Associado Convidado do ISCTE

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