Luís Todo Bom
Luís Todo Bom 02 de setembro de 2013 às 00:01

Estratégia de desenvolvimento por clusters

Em minha opinião, só o "cluster" das TIC – Tecnologias de Informação e Comunicação, se desenvolveu em Portugal, com potencial de competitividade global

A estratégia de desenvolvimento dos países, suportada em "clusters", foi desenvolvida, no início dos anos 90, por Michael Porter, a partir do seu livro "The Competitive Advantage of Nations".


O "Diamante de Porter" era, na época, muito inovador, o que explica que tenha sido utilizado em vários países, incluindo Portugal.

Para efeitos do modelo, os "clusters" eram constituídos por um conjunto de empresas e entidades interligadas em torno de um determinado sector da "industry" e com uma base regional consistente.

Quanto mais preenchida fosse a malha de unidades empresariais interligadas em torno dessa "industry" maior seria a sua competitividade nos mercados globais.

Porter e a sua equipe identificaram, no âmbito do "Projecto Porter" em Portugal um conjunto de "clusters" onde Portugal tinha e podia incrementar as suas vantagens competitivas: Turismo, Calçado, Vestuário, Vinhos, Mobiliário, Florestas, …..

Desenvolveram-se programas específicos para o estreitamento desta malha inter-relacional para cada uma destas indústrias, que foram executados com diferentes graus de realização, justificando os resultados modestos deste estudo para a competitividade da economia portuguesa.

O modelo de Porter, tal como definido em 1990, está completamente ultrapassado, mas as potencialidades dos "clusters" mantêm-se, com a seguinte alteração significativa: têm de ter um suporte tecnológico relevante.

Nesta nova formulação, em minha opinião, só o "cluster" das TIC – Tecnologias de Informação e Comunicação, se desenvolveu em Portugal, com potencial de competitividade global.

Existem indícios animadores para a eventual consolidação do "cluster" da Biotecnologia, embora, a uma distância considerável do primeiro.

E é neste enquadramento que tenho lido, com enorme estupefacção, a defesa do "cluster do mar", em Portugal, que considero uma miragem já que o país não detém nenhuma tecnologia nem unidades empresariais relevantes neste sector, tendo, inclusivamente, abandonado actividades onde já teve, no passado, alguma capacidade competitiva.

Não detemos conhecimento tecnológico relevante, neste momento, na área das Pescas, Piscicultura, Biologia Marítima, Arquitectura, Construção e Reparação Naval, Transporte Marítimo, Terminais e Movimentação Portuária.

Defender as potencialidades do "cluster do mar" porque temos muito mar é equivalente à defesa do "cluster do silício" pelos países que têm muita areia!

Construir um "cluster" a partir de uma base tecnológica incipiente é um esforço gigantesco, cuja probabilidade de insucesso é muito elevada.

O caminho deve ser exactamente o oposto, ou seja, identificar os "clusters" onde a nossa capacidade tecnológica actual é mais elevada e preparar um programa para o seu aprofundamento, eventualmente, em cooperação com outras regiões com um estádio de desenvolvimento tecnológico semelhante.

Mas esta opção é incompatível com anúncios inflamados!

Professor Associado Convidado do ISCTE
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