Luís Todo Bom
Luís Todo Bom 31 de janeiro de 2016 às 19:30

Investimentos e balança comercial: as variáveis que contam

Apresentei, recentemente, numa conferência organizada pela Ordem dos Engenheiros sobre "Os Desafios Próximos da Economia Portuguesa" uma comunicação intitulada "Investimento e Balança Comercial: As Variáveis que Contam".

A tese que procurei desenvolver e partilhar com os colegas da minha Ordem é simples e pode ser sintetizada do seguinte modo:

 

• A evolução do PIB - Produto Interno Bruto não é a variável adequada para avaliar a evolução da performance da economia portuguesa nos próximos tempos;

 

• A evolução positiva da economia portuguesa deverá ser suportada no investimento produtivo em bens e serviços transaccionáveis que promovam o aumento das exportações e, por essa via, o superavit da balança comercial;

 

• O crescimento do PIB, suportado no consumo, promoverá um aumento das importações, um deficit da balança comercial e o aumento do nosso endividamento externo, pelo que será uma má opção de política económica.

 

Mas o desdobramento desta síntese em termos mais analíticos convida-nos a reflectir sobre um conjunto de alíneas adicionais ligadas ao investimento e à balança comercial.

Na variável investimento, importa referir que:

 

• Devemos privilegiar os investimentos reais, em activos fixos (não-financeiros), de capacidade e produtividade; captar investimento estrangeiro com incorporação de novas tecnologias e em grandes empresas (investimentos estruturantes); concentrar o investimento público nas infra-estruturas e o  privado nas unidades produtivas; privilegiar a sua integração em "clusters", na indústria e serviços de alto valor acrescentado, em bens e serviços transaccionáveis e com inovação nos produtos, serviços, processos e posicionamento;

 

• Os programas comunitários - Horizon 2020 e Cosme, assim como o programa nacional Portugal 2020, devem ser utilizados, adoptando uma discriminação positiva, para este tipo de projectos;

 

• A atracção de investimento estrangeiro para grandes unidades estruturantes, replicando alguns bons exemplos actuais do país, deve constituir uma prioridade nacional.

 

Na variável balança comercial devemos concentrar-nos em:

 

• Aumento das exportações de alto valor acrescentado com incorporação de inovação tecnológica, para novos mercados e mercados exigentes, fomentando o aparecimento de grandes exportadores que desenvolvam alianças empresariais intermercados e utilizem eficazmente as cadeias de logística e de distribuição internacionais;

 

• Favorecimento das importações de equipamentos de produção, máquinas e ferramentas para a indústria e de veículos pesados para transporte de mercadorias e penalização fiscal de bens de consumo;

 

• Monitorar permanentemente a balança comercial, garantindo um superavit permanente.

 

Os últimos dados sobre estas duas variáveis são preocupantes.

 

O investimento caiu para níveis muito baixos, da ordem de 15% do PIB, as exportações em 2015 baixaram de 40% do PIB (a nossa ambição devia ser 60% do PIB!) e as importações aumentaram, sendo já claro um deficit na balança de bens que não deve ser possível compensar com a balança de serviços.

 

Se forem aprovadas medidas adicionais de apoio ao consumo interno, receio que a economia portuguesa volte a entrar numa trajectória divergente em relação à média europeia.  

 

Professor Convidado Associado do ISCTE

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