Manuel Caldeira Cabral
Manuel Caldeira Cabral 17 de setembro de 2013 às 00:01

A crise, a reacção à crise e a discussão nas eleições Alemãs

A Alemanha também está a pagar, em perda de crescimento, o preço da austeridade que impôs à Zona Euro. O peso do seu sector exportador e a redução de juros que conseguiu atenuaram estes efeitos, face ao Sul da Europa, mas no fim uma verdade simples impôs-se: o que é mau para a Europa não pode ser bom para a Alemanha.

O debate eleitoral alemão trouxe uma novidade interessante. A oposição assumiu de uma forma clara uma divergência face à política de austeridade que a liderança alemã impôs à Zona Euro (ZE), responsabilizando a chanceler Merkel pelos maus resultados da política europeia em grande medida por si ditada. Esta política lançou a ZE numa segunda recessão, abrindo um enorme fosso entre o crescimento verificado nos EUA e na ZE. Situação que afectou fortemente a Europa do Sul, mas que afectou também a Alemanha, França, Holanda e Finlândia.


A resposta europeia nos primeiros anos da actual à crise foi coordenada com os EUA, seguindo linhas semelhantes, com resultados também semelhantes. A partir da crise Grega há uma inflexão de política na Zona Euro, com reflexos nas medidas de austeridade tomadas em 2011 e reforçadas em 2012 e 2013. A alteração da linha de resposta à crise foi determinada pela liderança alemã e francesa e aplaudida por muitas das lideranças conservadoras da ZE. Diferenciou-se a partir daí da linha seguida pelos EUA. Os resultados em termos de crescimento são visíveis no gráfico 1.

Entre 2004 e 2010, a linha de crescimento do PIB dos EUA e da Zona Euro confundem-se. Partindo de uma base 100 em 2004, divergem em média menos de um ponto percentual até 2010. A divergência tem início em 2011, em que a Zona Euro se apresenta já 1,2% abaixo dos EUA. A inflexão de política em 2011 e a persistência de políticas de austeridade em 2012 e 2013, revela-se de forma mais acentuada em 2012 e 2013, com a diferença entre o crescimento dos EUA e o da Zona Euro a abrir um fosso de 4 pontos percentuais, em 2012, que se deverá alargar para os 7 pontos percentuais, em 2013, e continuar crescer em 2014, de acordo com as previsões da União Europeia.

Este fosso significa que, em 2013, a Economia dos EUA estará já 5% acima do nível de produção anterior à crise, enquanto a Zona Euro estará ainda cerca de 2,5% abaixo do valor que registava em 2008. Um fosso que se reflecte no desemprego, que sendo semelhante nos dois blocos em 2010, desceu já até para 7,4% nos EUA e continua a subir na Zona Euro, em que está já acima dos 12%. As escolhas políticas têm consequências.

A queda do PIB afectou de forma mais acentuada os países do sul da Europa, deixando a ideia de que estes foram os únicos países prejudicados pelas opções políticas tomadas. Internamente a chanceler alemã conseguiu durante muito tempo vender a ideia de que tinha conseguido isolar a Alemanha das consequências da tempestade na Europa.

No entanto, os dados desmentem esta tese, sugerindo que os países do centro da Europa também estão a ser afectados. Nos dois últimos anos houve uma forte redução nas taxas de crescimento não só dos países do Sul da Europa, mas também da Alemanha, França, Holanda e vários outros países do Norte da Europa.

A oposição alemã tem razão em criticar o legado da Chanceler Merkel. A Alemanha também está a pagar, em perda de crescimento, o preço da austeridade que impôs à Zona Euro. O peso do seu sector exportador e a redução de juros que conseguiu atenuaram estes efeitos, face ao Sul da Europa, mas no fim uma verdade simples impôs-se: O que é mau para a Europa não pode ser bom para a Alemanha.

O fosso de crescimento entre os EUA e a ZE deverá manter-se em 2014. No final de 2014 a Zona Euro deverá ter uma diferença de PIB, face à que teria se tivesse uma evolução semelhante à dos EUA, de 6 a 7%. No caso da Alemanha, o diferencial será de apenas 3 a 4 pontos, e no da França deverá ser de 5 pontos percentuais. Estes valores traduzem-se em perdas de PIB acumuladas ao longo de 3 anos de 1400 mil milhões em toda a Zona Euro (mais de 8 vezes o PIB português e mais do dobro da divida conjunta da Grécia, Portugal, Irlanda e Chipre). Destes, mais de 200 mil milhões perdas de PIB da Alemanha e 250 mil milhões na França. Perdas de PIB que decorrem da diminuição da procura e do desperdício causado por milhões de trabalhadores parados no desemprego.

Não defendo que a Zona Euro devia ter seguido a mesma política dos EUA. Deveria ter seguido uma política mais moderada. Mas entre o 8, do exagero de austeridade europeia, e o 80 do expansionismo dos EUA, havia soluções mais equilibradas que teriam evitado uma parte importante das perdas e teriam contribuído para uma mais rápida reconquista da confiança nos países da Zona Euro.

Angela Merkel deverá ser reeleita no próximo dia 22. Mas a realidade dos números e o legado de divisão que criou na União Europeia já não podem ser escondidos e estão hoje a ser criticados dentro da própria Alemanha. A Alemanha é um país com responsabilidades nos períodos mais negros da história recente da Europa. Mas é também um país que, com justiça, se pode orgulhar do papel que teve na construção europeia, e de ter conseguido aproveitar o apoio que teve a seguir à segunda guerra mundial para se desenvolver e tornar na maior economia do continente. É esta Alemanha com orgulho no seu papel e nas suas responsabilidades europeias que muitos gostariam de ver voltar a emergir depois destas eleições.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

* Professor no departamento de Economia da Universidade do Minho


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mais votado João Sousa 18.09.2013

Bem fundamentado e claro.
Os que aqui criticam, em vez de insultos devia dar argumentos. Se calhar não têm. Deviam ler o que anda a escrever o FMI, ou mesmo as agências de rating. Ou então leiam este artigo de um economista de uma das mais prestigiadas universidades americanas.
http://www.project-syndicate.org/commentary/why-austerity-is-the-wrong-prescription-for-the-euro-crisis-by-mark-blyth

comentários mais recentes
Rui Pena 19.09.2013

Fala do que não sabe, da crise, do crash, e da recuperação ainda em curso nos EUA. Ao contrário do que diz este pseudo-economista, nos EUA a administração central e os 52 Estados em conjunto estiveram a despedir funcionários publicos e a cortar nas suas despesas e de forma agregada, só há um ou dois meses é que nos EUA a função publica não contribuiu de forma negativa para a criação de emprego. Houve austeridade na despesa publica e de forma significativa. A unica diferença em questão de apoios face à Europa é que nos EUA houve apoio financeiro do FED à recuperação na banca, nas taxas de juro de longo prazo-mercado da divida a 10 anos, e ao sector automovel. Enfim, uma imbecilidade e ignorancia este artigo. Faccioso e politizado como é costume. Quando é que isto acaba? já farta!

Anónimo 18.09.2013

joão sousa, aka manel caldeira cabral, tu tens umas cuecas tanga fio dental marca Armani, modelo José Sócrates? Tens? espectáculo! Têm à venda no Freeport? és um ignorante e um atrasado mental, e ganhas dinheiro do Estado, e eu a pagar! Filho de uma pouta.

João Sousa 18.09.2013

Bem fundamentado e claro.
Os que aqui criticam, em vez de insultos devia dar argumentos. Se calhar não têm. Deviam ler o que anda a escrever o FMI, ou mesmo as agências de rating. Ou então leiam este artigo de um economista de uma das mais prestigiadas universidades americanas.
http://www.project-syndicate.org/commentary/why-austerity-is-the-wrong-prescription-for-the-euro-crisis-by-mark-blyth

Paulo Esteves 18.09.2013

Excelente artigo. Apresenta de forma muito clara o custo da opção pela austeridade na Europa. E que esse custo apesar de ter sido mais acentuado para os países do sul também está a afectar os países do Norte incluindo a própria Alemanha. O artigo não falou dos ganhos da politica seguida, como a conquista de confiança pela Zona Euro. Se calhar com justiça. Portugal tem hoje taxas de juro mais elevadas do que antes de entrar a Troika, O ser bom aluno, com Governantes parolos que tanto aplaudiram e praticaram a politica de austeridade, indo para alem da troika, de nada adiantou. Nínguem confia numa economia a cair .

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