Manuel Caldeira Cabral
Manuel Caldeira Cabral 11 de junho de 2013 às 00:01

Será que Crato quer que a ciência recue 20 anos em Portugal?

Deitar abaixo o que vem de trás, mesmo o que funcionava bem é um erro que se soma aos cortes cegos efectuados. Numa legislatura, o actual governo pode destruir muito do avanço conseguido nos últimos 20 anos. Avanço que colocou o nosso sistema universitário como o 22.º melhor

Num momento em que Portugal se arrisca a perder milhares de alunos brasileiros de pós-graduação e a perder programas de cooperação com algumas das melhores Universidades internacionais (como MIT e a Carnegie Mellon), a política de ciência, ou a falta desta, está a desestabilizar centros de investigação e laboratórios associados, com alterações pouco claras nas regras de financiamento e de avaliação. 


O memorando de entendimento não previa, nem defendia cortes na ciência, uma área em que a Troika considerava que o país tinha registado uma evolução muito positiva vista como determinante para o reforço do crescimento e competitividade.

A decisão de fazer cortes na ciência, inclusive superiores aos cortes na despesa corrente, é uma decisão política. É uma opção do actual Governo. Cortar em cérebro, mais do que se corta em gorduras é uma decisão errada que compromete o potencial de crescimento futuro do país. A forte redução nas bolsas de doutoramento e nas verbas para pós-doutoramento (programa ciência) são exemplos que vão contribuir para aumentar o já enorme fluxo de fuga de cérebros que o país enfrenta.

Os cortes não são, no entanto, o único problema. Dou aqui quatro exemplos.

O primeiro é o da alteração do financiamento dos centros de investigação. O sistema de avaliação anterior promovia o mérito, garantindo financiamento mais elevado para os que se distinguiam na produção científica e nas actividades desenvolvidas e mais baixo ou nenhum aos mais fracos. Assegurava confiança e estabilidade, tendo avaliadores internacionais independentes e critérios conhecidos.

A alteração para um esquema de financiamento baseado essencialmente na apresentação de um projecto de intenções junta instabilidade e incerteza aos cortes. Centros com classificação de excelente podem ficar sem qualquer financiamento. Esta alteração dificilmente ajudará a credibilizar a avaliação ou a dar os incentivos certos. Quem vai querer investir a carreira em Portugal se nem os melhores centros de investigação podem garantir seja o que for?

Um segundo exemplo é o dos programas internacionais. Os programas com o MIT e Carnegie Mellon foram avaliados por uma equipa finlandesa a pedido do actual Governo, que concluiu que estes eram interessantes e correspondiam a dinheiro bem gasto. Apesar dos cortes nos orçamentos as prestigiadas universidades ainda consideram manter as colaborações. No entanto, a falta de empenho e a indefinição coloca-as em risco

Por exemplo, numa decisão estranha da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, os programas de doutoramento com o MIT foram excluídos no que diz respeito a bolsas de doutoramento. Mais uma vez não se trata de gastar mais ou menos, trata-se apenas de dar a estes doutoramentos condições iguais aos restantes. O Governo ao criar dificuldades terá de assumir a sua responsabilidade se o país vier a perder estas colaborações, que foi difícil conseguir trazer para Portugal. Se as perdermos desta forma, não será nada fácil convencer estas ou outras instituições de prestígio a colaborar com Portugal. Será um recuo grave na internacionalização da ciência portuguesa.

A situação dos doutoramentos em empresas é um terceiro exemplo. Baratos, pois a empresa pagava grande parte da bolsa ao doutorando, e com provas dadas, estes foram uma ponte importante para o aumento da colaboração entre universidades e empresas, ajudando os doutorados a criarem os seus próprios empregos e gerando valor para as empresas. A indefinição deste programa e do seu futuro já fizeram perder muitas oportunidades.

Um quarto exemplo, em que a política de ciência está a falhar, é a questão dos alunos de pós-graduação do Brasil. Há milhares que querem vir para Portugal. Havia bolsas brasileiras que os financiavam. A sua vinda dava dimensão e dinheiro às universidades portuguesas. O Governo esteve a dormir enquanto o Brasil discutia se as suas bolsas internacionais deviam financiar pós-graduações de brasileiros em Portugal.

Neste momento tudo indica que o nosso país vai ficar fora, não aproveitando o dinheiro e o potencial humano que esses milhares de brasileiros podiam trazer. A falta de empenho de Nuno Crato, e aqui também de Paulo Portas, tem de ser responsabilizada por este desaire. Depois de tanto dinheiro gasto no ano Portugal-Brasil de 2012, este resultado é embaraçante.

Depois de vários anos de aumento do investimento em ciência, com resultados visíveis no crescimento das publicações científicas, do número de doutorados, mas também do registo de patentes e da investigação conjunta com empresas, esperava-se e exigia-se que se aproveitasse ainda melhor este investimento reforçando a cooperação entre universidades e empresas, progredindo na inserção internacional das universidades portuguesas e na sua capacidade de atracção de estudantes estrangeiros.

Ao fim de dois anos, é difícil perceber o que os actuais responsáveis querem manter, e o que querem alterar na ciência e no ensino superior. Deitar abaixo o que vem de trás, mesmo o que funcionava bem é um erro que se soma aos cortes cegos efectuados. Numa legislatura, o actual governo pode destruir muito do avanço conseguido nos últimos 20 anos. Avanço que colocou o nosso sistema universitário como o 22.º melhor, uma posição acima da normalmente ocupada por Portugal, que faz deste um potencial factor de crescimento futuro. Afundar esse potencial é dar um tiro no pé, num momento em que o país enfrenta uma dura maratona.

Professor no departamento de Economia da Universidade do Minho
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mais votado Francisco Azevedo Há 2 semanas

O Ortigão São Payo é daqueles que ficou parado no discurso salazarista de que gastar em educar a população de um país é um desperdício. Quando acordar desse sonho tente ver se há algum país rico que não tenha uma proporção de pessoas com educação superior elevada. Vai ver que não encontra nenhum. Pergunte-se também porque é que os licenciados ganham mais do que os não licenciados. Será que é porque as empresas gostam de gastar dinheiro, ou porque estudar numa universidade acrescenta valor às pessoas. As pessoas são o principal activo do país. No passado já tivemos a experiência de não apostar na educação. Se há coisa que explica o nosso atraso é essa. Se calhar também é isso que explica o atraso nas mentalidades, quer de quem nos governa quer de muitos comentadores.

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José Fangueiro Há 1 semana

Estes senhores do governo estão apostados em destruir tudo de positivo feito em Portugal. É urgente, é imperioso correr com eles.

DDDD Há 1 semana

Vejam só a produção desta investigadora Raquel Varela: http://ihc.fcsh.unl.pt/pt/ihc/investigadores/item/1242-rcvarela O PIB deu um salto imenso!

ciencia em portugal, a sério, nunca houve, seu PALERMA Há 1 semana

e no tempo sócrates as universidades foram totalmente ajavardadas, e politizadas como organizações burocráticas pelo lobby PS e do lobby gay e do lobby maçon, como é o teu caso, por exemplo. É isto que é ciência? só se for a tua ciencia de levar no ku. Palhaço do PS ´socratico... o pior gay é o que não quer ver, seu badalhoco.

Anónimo Há 1 semana

Afinal fez-se tanto alarido no anterior Governo quando se esteve quase a perder o MIT, e os actuais Governantes andam a boicotar um projecto com provas dadas e o país parece indiferente. Devem achar que se o MIT sair é fácil convencer outros dez MIT a virem para este paraíso à beira mar plantado. Abram os olhos. Não há outros dez MIT, e as boas universidades dificilmente virão colaborar com um país que não cumpre contratos com ninguém.

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