Manuel  Falcão
Manuel Falcão 09 de junho de 2017 às 10:16

A esquina do Rio

Este ano, é com o Verão à porta que regressam as greves, depois de muitos meses de acalmia. Um amigo com quem almocei esta semana tem uma explicação, que me pareceu plausível
Back to basics
Estou convencido de que no sótão do Ministério dos Negócios Estrangeiros há uma pequena sala esconsa onde os candidatos a diplomatas são ensinados a gaguejar.
Peter Ustinov

Época
Este ano, é com o Verão à porta que regressam as greves, depois de muitos meses de acalmia. Um amigo com quem almocei esta semana tem uma explicação, que me pareceu plausível, para a nova sazonalidade destas movimentações sindicais de peças fundamentais da administração pública, como o ensino e a justiça: o Orçamento está em fase de preparação nos próximos meses e o objectivo dos parceiros do Governo é encontrarem mais dinheiro para a máquina do Estado. Estas greves são um sinal a António Costa e uma chamada de atenção a Centeno. Depois do cheque branco que o PCP e Bloco entregaram ao PS pós-eleições de 2015, começam agora a vir as facturas. A grande incógnita está em saber o que a habilidade política de Costa conseguirá, estando os seus parceiros notoriamente nervosos e a quererem todos os dias mais uma fatia do bolo da recuperação das contas públicas. É tão engraçado ver como o estado de hibernação foi suspenso aos primeiros calores e como agora as coisas se vão agitando. O jogo tem premissas simples: Costa precisa de uma legislatura completa e com resultados visíveis em termos de cumprimento das regras europeias para tentar a maioria absoluta, ou um resultado que o deixe menos nas mãos do Bloco e do PCP. E os "compagnons de route" temem pelo seu eleitorado, que começa a ficar irrequieto e acham que já é tempo de receberem o prémio de bom comportamento. Os próximos meses, até à entrega do Orçamento do Estado, vão ser muito curiosos de seguir. 

Dixit
Tenho martelo e vou usá-lo com fartura.
Rui Moreira, a propósito dos festejos de S. João, no Porto.

Semanada
 As mortes por overdose de drogas aumentaram na Europa pelo terceiro ano consecutivo e, em 2015, atingiram 8.400 pessoas  um estudo divulgado esta semana indica que o mercado das drogas ilícitas na União Europeia movimenta cerca de 24 mil milhões de euros por ano  o laboratório de polícia científica da Judiciária identificou em Portugal o aparecimento de 80 novas drogas em seis anos  em 2016, pela primeira vez em quatro anos, o Partido Socialista conseguiu um saldo financeiro positivo de 250 mil euros  a venda de casas penhoradas pelo Fisco está a cair mais de 40% em comparação com o ano passado  entre 2007 e 2016, Portugal ganhou uma média de 40 mil novos cidadãos por ano, segundo um estudo do Observatório das Migrações, que salienta que a maioria tem origem em países onde se fala português  o consumo de refrigerantes caiu com a nova taxa sobre produtos com açúcar e, no caso das bebidas mais açucaradas, a quebra foi de 72%  segundo a Marktest, durante o mês de Abril, foram visitadas 298 milhões de páginas de sites de informação nacionais e o tempo total de navegação nestes sites superou as 4,8 milhões de horas, uma média de 1 hora e 28 minutos por utilizador, o que significa um aumento de 5,6% no número total de horas e de 12,8% no número de horas por utilizador, quando comparados com o mês homólogo do ano anterior  verificaram-se oito acidentes mortais com tractores em 15 dias.

Ver
A recomendação da semana vai para o novo encontro proposto na Fundação Júlio Pomar. Desta vez é entre o próprio Pomar e Pedro Cabrita Reis, que se encontram sob o título "Das pequenas coisas", numa exposição que ficará até 8 de Outubro no ateliê-museu na Rua do Vale 7, no Bairro Alto. Esta série de encontros tem por objectivo cruzar a obra de Júlio Pomar com outros artistas por forma "a estabelecer novas relações entre a obra do pintor e a contemporaneidade" - o convidado anterior foi Julião Sarmento. "Das pequenas coisas" recorre a objectos, esculturas e "assemblages", em materiais variados. Pedro Cabrita Reis mostra uma série de esculturas e objectos feitos com materiais de várias proveniências, nomeadamente materiais encontrados na rua e na praia, ocupando todos os espaços do ateliê-museu, incluindo o caminho de acesso do edifício recuperado por Álvaro Siza, que até aqui não tinha sido ainda utilizado como área expositiva. A informação da exposição salienta que "foi também na praia, durante um período de quatro meses de férias e trabalho no Algarve, no Verão de 1967, em Manta Rota, que Júlio Pomar começou a produzir 'assemblages' de objectos e materiais aí encontrados, corroídos e desgastados pelo sal, pelo sol, pelo tempo". A curadoria é de Sara António Matos, que é a directora do ateliê-museu desde 2012. Outras sugestões: na Galeria Ratton, Helena Lapas expõe até final de Julho "Matéria do Tempo" (Rua da Academia das Ciências 2C); e, até dia 18, ainda pode ver "Pai", de Paulo Brighenti, na Ermida de Nossa Senhora da Conceição, Travessa do Marta Pinto, por trás dos Pastéis de Belém. E, finalmente, num registo diferente, este sábado às 16h00, mais uma sessão do ciclo "Grandes Clássicos no Grande Ecrã do Grande Auditório do CCB" - no ecrã, vai passar "Cleópatra", o filme de Joseph L. Mankiewicz com Elizabeth Taylor, de 1963, em nova versão digital restaurada. 

Gosto
Do discurso de aceitação do Nobel, de Bob Dylan, que ele divulgou esta semana e cuja gravação se encontra disponível na internet. 

Não gosto
De um sistema judicial que promove investigações com base em denúncias anónimas e em cima do prazo de prescrição.

Folhear
Carlos Quevedo é o mais português dos argentinos. Nasceu em Buenos Aires em 1952 e, em 1978, renasceu em Lisboa depois de ter andado por diversas paragens. E por cá ficou, a fazer teatro (encenou peças de Beckett, Ibsen e Pinter), dedicou-se à escrita, teve responsabilidades em O Independente e na Kapa, viu televisão para a Visão e, de há alguns anos para cá, apaixonou-se pela rádio - desde 2015, é o autor e produtor do programa "E Deus Criou O Mundo", na Antena 1, onde procura fomentar o debate inter-religioso. Vai daí, pegou no conceito e no nome do programa e fez este livro, que aborda três das religiões historicamente mais representativas: o judaísmo, o cristianismo e o islão. O livro tem uma abordagem histórica das origens destas religiões, a partir de um tronco comum, com origem em Abraão. Como Carlos Quevedo escreve, "só com o diálogo inter-religioso podemos conhecer o mundo diverso e semelhante dos homens de fé". E sublinha: "Ter o mesmo Deus é o que os une, mas fazer a sua vontade na Terra parece ser a grande divergência." O livro está organizado em quatro partes: as duas primeiras abordam o enquadramento das religiões, e a terceira mostra as posições que as três religiões têm sobre a vida dos crentes, na família, no casamento e no divórcio e, finalmente, como o judaísmo, o catolicismo e o islão encaram a morte. Este é um livro que permite descobrir os pontos comuns - e as diferenças - entre estas três religiões. "Conhecer os credos é conhecer a humanidade", como Carlos Quevedo escreve já no final do livro. 

Arco da velha
Os professores marcaram greve para o dia em que se realizam exames de matérias que andaram a ensinar aos seus alunos.

Ouvir
João Gil tornou-se conhecido quando, em 1976, fundou os Trovante com Luís Represas, Manuel Faria e João Nuno Represas. Os Trovante fizeram canções que marcam a história da música popular portuguesa e João Gil compôs muita da sua música. Mais tarde, criou os Moby Dick, compôs a Ala dos Namorados, esteve no projecto Rio Grande, Cabeças no Ar, Filarmónica Gil, depois os Baile Popular e o Quinteto Lisboa, entre outros. Grande parte da sua obra mais conhecida vem do tempo dos Trovante e da Ala dos Namorados. Luís Represas, João Monge, e Carlos Tê são alguns dos co-autores das suas mais célebres composições. "João Gil Por…", um duplo CD agora editado, recolhe 26 canções assinadas por João Gil, aqui interpretadas por outros nomes - 32 convidados para ser exacto. Permito-me destacar a maneira como Carlão e Lúcia Moniz reinventam a "125 Azul", como "Tatanka" faz redescobrir "Fim do Mundo", como Luísa Sobral dá a volta a "Postal dos Correios" ou Héber Marques canta "Solta-se o Beijo". Destaque ainda para a simplicidade de Miguel Araújo em "Senta-te Aí", para Jorge Palma em "Dezembro", para Celina da Piedade (com o próprio João Gil) em "Timor", e para João Pedro Pais e Márcia, respectivamente, em "Providência Cautelar" e "Memórias de um Beijo". Os discos de versões podem ser um exercício perigoso. Este correu muito bem. CD Warner.

Provar
Quando era miúdo, não gostava nada de coco. Os bolos de coco enjoavam-me, o coco ralado fazia-me impressão. Foi graças ao caril que me reconciliei, através do leite de coco, fundamental para que o belo molho resulte. Aos poucos, comecei a usar leite de coco em alguns pratos, como alternativa à nata. Esta semana, por exemplo, fiz lombos de salmão no forno com funcho e courgette cortada em esparguete, tudo embebido em leite de coco. Com os ingredientes previamente temperados com limão, gengibre, cebolinho fresco, pimenta e um salpico de vinho branco, ficou uma maravilha ao fim de 25 minutos no forno, já com o leite de coco adicionado. A minha rendição ao coco estende-se ao óleo do dito. Experimentem estrelar um ovo em óleo de coco ou usá-lo para untar a placa das panquecas e não quererão outra coisa. Ainda por cima é uma gordura saudável com benefícios provados. E o melhor de tudo é que dá bom sabor aos alimentos que nele são cozinhados, o que nem sempre acontece com alguns bruxedos apresentados como saudáveis. 


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