Álvaro Nascimento
Álvaro Nascimento 18 de julho de 2017 às 00:01

Número zero!

Existe um clima propício à "pós-verdade", alimentado pela facilidade com que se pode "fabricar" notícias.

A FRASE...

 

"A decisão de reabrir a discussão sobre a escolha da cidade portuguesa foi apoiada pelos partidos com assento parlamentar, como o Bloco de Esquerda, que tinham contestado a escolha de Lisboa, mesmo depois de a terem saudado em voto na AR."

São José Almeida, Jornal Público, 12 de Julho de 2017

 

A ANÁLISE...

 

"Número zero" é o título do último livro de ficção de Umberto Eco. A história desenrola-se em torno do lançamento de um novo jornal, cuja linha editorial é "contar toda a verdade"! Com o sugestivo título de "Domani" (Amanhã) - numa alusão às notícias que serão publicadas no dia seguinte -, o jornal nunca chega às bancas. Várias provas de "números zero", enviadas a políticos e personalidades influentes da sociedade italiana, encarregam-se de criar condições para (como pretendido pelo seu promotor) liquidar o projecto.

 

Numa abordagem subtil, Umberto Eco disserta, com acutilância mordaz, sobre as reais possibilidades de manipulação dos media para condicionar a actuação de certos grupos e favorecer a realização dos interesses de outros: é possível contar "verdades" distintas sobre a mesma realidade, afirma, consoante os títulos que são trazidos para a primeira página, as notícias que são escolhidas, ou os depoimentos que são ouvidos.

 

O tema e o problema não são novos! A "verdade" não é um conceito objectivo e a leitura da realidade difere consoante os pontos de vista, a informação de que dispomos e, claro está, os nossos próprios interesses e convicções. É possível encontrar na história da civilização ocidental - como nos primeiros dois triunviratos da Roma antiga - demonstrações de disputa da "verdade" entre facções que, mesmo estando juntas, pretendem controlar o poder.

 

Hoje, no ímpeto da internet, o tema ganha importância pela sua expressão! Existe um clima propício à "pós-verdade", alimentado pela facilidade com que se pode "fabricar" notícias: os meios de comunicação disponíveis permitem disseminar de forma acelerada e acrítica "formatações" múltiplas da realidade imediata e, não raras vezes, de reinterpretações do passado, como ocorre no romance de Eco e, como podemos observar, nas classes dirigentes à nossa volta.

 

O ruído mediático é (talvez propositadamente) tanto, que é difícil fugir à espuma dos tempos. Sujeitos a distracções sucessivas, somos desviados de reflectir sobre a realidade dos factos, formar a nossa opinião e escolher a nossa própria verdade! A propósito dos media, é útil recordar a (já antiga) sinalização nas passagens de nível: "Para, escuta e olha!"

 

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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