Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 28 de janeiro de 2016 às 00:01

O indisciplinador no materialismo aleatório

Esta foi uma eleição de um contra todos - contra candidatos de frente unida, contra candidatos partidários, contra candidatos espontâneos.

A FRASE...

 

"Para proteger os cidadãos, o Presidente da República tem de correr riscos. Não cuide de si,

cuide do seu povo."

 

António Barreto, Diário de Notícias, 24 de Janeiro de 2016

 

A ANÁLISE...

 

Um candidato ao único órgão de soberania unipessoal que é eleito depois de uma campanha individualizada, sem dependência de aparelhos partidários, tem um poder que é interpretado por ele próprio. É uma redundância, porque o Presidente é sempre o único intérprete de si próprio. Mas é uma redundância que não deixa lugar à dúvida. Esta foi uma eleição de um contra todos - contra candidatos de frente unida, contra candidatos partidários, contra candidatos espontâneos. Se a campanha individualizada gera um poder personalizado, é a vitória de um contra todos que estrutura a responsabilidade de quem exerce este poder, porque não há divisão de legitimidades.

 

Quase tudo o que acima está escrito é aplicável às três candidaturas de Cavaco Silva, a que perdeu e as duas que ganhou. O que poderá fazer esperar que Marcelo Rebelo de Sousa tenha mais sorte do que a que teve o Presidente que lhe transmite a estafeta institucional? Paradoxalmente, é a gravidade e a visibilidade da crise que lhe abrem o campo de possibilidades que nenhum outro Presidente teve. Ele sabe que o regime anterior caiu porque não conseguiu resolver a questão crítica do fim do império. Por isso mesmo, ele sabe que a destruição do capital e a dívida formam o núcleo crítico que pode destruir a Terceira República.

 

Fernando Pessoa escreveu, num texto com o título "A doença da disciplina", que "Portugal precisa dum indisciplinador. Todos os indisciplinadores que temos tido, ou que temos querido ter, nos têm falhado". Louis Althusser, nas suas últimas reflexões sobre a teoria política, escreveu sobre o materialismo aleatório, onde o encontro ocasional do indisciplinador com a crise abre a oportunidade de uma resolução antes imprevista, que se gera nesse encontro. Os dados estão lançados.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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