Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 29 de agosto de 2016 às 20:30

Relatório amordaçado

Percebe-se que os especialistas da análise prefiram ignorar este relatório: ele vem confirmar que não viram o que, desde 1995 – quando se iniciou a trajectória que conduziria inevitavelmente à crise do presente –, escolheram não ver.

A FRASE...

 

"§66. Os relatórios do FMI na década de 2000 revelaram os problemas económicos de Portugal: redução do crescimento, agravamento dos desequilíbrios macroeconómicos, riscos crescentes no sector financeiro, necessidade de consolidação fiscal e, em menor medida, factores de competitividade e de crescimento a médio prazo."

 

The Portuguese Crisis and the IMF, Independent Evaluation Office of the IMF, 8 de Julho de 2016

 

A ANÁLISE...

 

A retórica trata das palavras, a análise trata dos factos. A retórica projecta sombras para esconder os corpos. A análise ilumina os corpos para os separar das sombras que os ocultam. Compreende-se que os especialistas da retórica tenham de amordaçar este relatório de autoavaliação crítica do FMI: ele desmente os comentários que produziram e que, confirma-se agora, apenas pretendiam esconder os factores da crise portuguesa para prolongar a ilusão do socialismo distributivo. Percebe-se que os especialistas da análise prefiram ignorar este relatório: ele vem confirmar que não viram o que, desde 1995 – quando se iniciou a trajectória que conduziria inevitavelmente à crise do presente –, escolheram não ver.

 

O relatório também confirma a má-fé dos negociadores portugueses quando participaram na formulação do Memorando de Entendimento em 2011, escondendo as responsabilidades com empresas públicas (incluindo os contratos de swap) e os encargos com as parcerias público-privadas. Mas não consegue resolver o enigma principal: que pretendiam os políticos portugueses com as políticas que adoptaram desde 1995 e com as tácticas que seguiram antes, e sobretudo depois, da assinatura conjunta (por três partidos) do programa de assistência financeira? Para resolver este enigma, seria preciso articular a esfera económica com a esfera política (e os interesses particulares dos seus protagonistas) e a esfera social (e as preferências dos grupos sociais, que também são grupos eleitorais).

 

Os técnicos do FMI não estão autorizados a fazê-lo, mas os analistas portugueses têm a obrigação de abandonar a postura dos macacos sábios chineses (não ver, não ouvir e não falar) para recusar a cumplicidade com a retórica que conduz à eterna repetição da crise. 

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mais votado surpreso1 30.08.2016

"Especialistas de análise" refere-se a uns papagaios que vão às televisões,enganar os portugueses?Que havia alternativa,austeridade ideológica,blá-blá?

comentários mais recentes
Mr.Tuga 31.08.2016

Este SITIO mal frequentado MERECE-SE!

surpreso1 30.08.2016

"Especialistas de análise" refere-se a uns papagaios que vão às televisões,enganar os portugueses?Que havia alternativa,austeridade ideológica,blá-blá?

PauloPachecoFerreira 29.08.2016

Meu caro amigo, no fundo está enganado. A verdadeira origem dos problemas actuais (e do passado recente) não tem origem em 1995, com o que chama de socialismo distributivo; honestamente acho que esse orientação nem teve nada de muito ambicioso (já a maluquice, bem mais tarde, do Sócrates com as obras públicas ...) . O problema foi que o crescimento económico desapareceu de um momento para o outro.

Na verdade, a origem de quase todos os problemas actuais da economis portuguesa tem a ver com a política cambial iniciada em 1986, fortemente agravada em 1990 (por influência dos adiantados mentais M. Beleza e António Borges, então no Banco de Portugal) e, claro, por decisão do incompetente e ignorante "Professor Catedrático" Cavaco Silva. Guterres criticou a opção do "escudo caro", mas no governo fez o mesmo e mais tarde ainda pior, com a adesão ao euro sem, no mínimo, desvalorizar préviamente o escudo em pelo menos 25%.

Como dizia um empresário brasileiro, quando a política económica permite que as minhas secretárias comecem a achar que vale a pena fazer ir a Miami fazer compras, é altura de começar a montar esquemas que me permitam especular contra a moeda do meu país. E dizia que nunca se tinha dado mal com isso, antes pelo contrário, tinha ganho bom dinheiro. Claro, no curto prazo, uma moeda nacional artificialmente forte ajuda a ganhar eleições!

A grande diferença, comparando com o nosso país, foi que o dinheiro da CEE (incluindo endividamento face ao exterior) permitiu que o regabofe durasse muitos e muitos anos. Mas como eu sempre disse, quando mais a festa dura, pior a ressaca.

Ah, dizia-se, temos dívida mas também temos os activos. Viu-se, mas que belos activos ...

Curioso, o Durão Barroso e o Portas, resolveram abandonar, mais ou menos pela mesma altura, a carreira política, cuja continuação, em ambos os casos passaria por um cargo nacional (presidência da república).

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