Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 08 de maio de 2017 às 19:56

Reverter a História

Hoje, nenhum Estado nacional europeu é soberano porque já não tem escala para gerar os recursos da soberania, que só teve enquanto dominava o mundo com as suas redes imperiais e não precisava de recorrer ao endividamento para financiar as suas políticas públicas.

A FRASE...

 

"A União Europeia é uma ditadura."

 

Marine Le Pen, Expresso, 21 de Março de 2015

 

A ANÁLISE...

 

É possível reverter decisões políticas, para negociar uma coligação ou para prolongar uma ilusão. Mas não serve de nada pretender reverter a História. A História não é um programa político que se possa substituir por outro, ao sabor de resultados eleitorais. A História é um processo cumulativo, nunca pode ser revertido.

 

O Estado nacional, estruturado na Europa para pôr fim às guerras religiosas, o Estado da soberania que não se subordinava ao poder religioso e encerrava as populações e as economias em fronteiras onde se exercia esse poder soberano, era também o Estado dos impérios europeus - e quem não os tinha desencadeava guerras para os conquistar. Quando os Estados nacionais europeus perderam as suas extensões coloniais, a natureza do poder nos Estados europeus alterou-se radicalmente - mas as populações europeias, protegidas pelos dispositivos das políticas sociais distributivas e pela garantia de segurança oferecida pelos Estados Unidos, não foram obrigadas a reflectir sobre as consequências dessa mudança.

 

Hoje, nenhum Estado nacional europeu é soberano porque já não tem escala para gerar os recursos da soberania, que só teve enquanto dominava o mundo com as suas redes imperiais e não precisava de recorrer ao endividamento para financiar as suas políticas públicas. Sem a União Europeia e sem a partilha de recursos que as instituições europeias permitem gerar e organizar, os Estados nacionais europeus são simples autarquias locais à espera de serem capturadas por poderes extra-europeus - por dominação militar ou por subordinação aos constrangimentos financeiros. Compreende-se que Le Pen e Mélenchon, Trump e Putin, tenham o objectivo comum de destruírem a União Europeia: para os primeiros, é a ditadura que lhes nega o acesso ao poder; para os segundos, é o último império europeu que tem de ser desagregado para ser capturado.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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