Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 01 de maio de 2017 às 17:45

Roxo e rosa

Não é roxo, é rosa. E só deixará de ser quando a realidade efectiva das coisas (a dívida, a estagnação, a União Europeia) revelar o que se esconde por baixo da rosa.

A FRASE...

 

"Não me venha dizer que não é roxo, que é um violeta, sei lá o quê … Como é que se chama a cor do PS? Rosa! Não, é roxo. Não, é rosa. Digo-lhe isso e já comparei roxo e rosa muitas vezes ao longo da vida."

Marcelo Rebelo de Sousa, no Colégio Moderno, 27 de Abril de 2017.

 

A ANÁLISE...

 

A informalidade de um improviso pode ser mais reveladora dos processos de decisão política do que os discursos formais, controlados pelas convenções do estilo. Quando se simplifica o diálogo político a uma questão de roxo e rosa está-se a retomar a clássica querela dos nomes, em que o nome da coisa é a condição de base para a sua compreensão e para o seu controlo: nomear é um atributo do conhecimento e do poder.

 

No improviso presidencial que descreve a querela das cores, porque os partidos também se designam pelas cores, aparece à superfície o que se mantinha submerso: o estatuto do PS como partido charneira do sistema partidário português, aquele que pode fazer alianças com todos os outros e, assim, aparecer como aquele que põe o nome às coisas na política. Já houve o rosa-pálido do primeiro governo minoritário, já houve o rosa-azul do primeiro acordo com o FMI, seguido do rosa-laranja do segundo acordo com o FMI, até que se voltou ao rosa-pálido (quando se inicia o trajectória ascendente da curva da dívida pública) e se evoluiu até ao rosa-forte da maioria absoluta, voltando ao rosa-pálido que conduziu ao terceiro acordo com o FMI. Em todos estes casos, a estratégia da rosa consiste em denunciar as ameaças constituídas pelas outras forças partidárias, à direita e à esquerda, para assim sublinhar as virtudes próprias. E como está na linha de fronteira entre as duas metades do sistema partidário, é na rosa que está o poder de decisão: a rosa é o nome da coisa.

 

Sempre? Não, só quando tem a garantia de ser a posição dominante. O PS só se alia a outros partidos desde que esteja na posição dominante: não é uma questão de políticas e de programas, é sempre uma questão de posição e de poder. Não é roxo, é rosa. E só deixará de ser quando a realidade efectiva das coisas (a dívida, a estagnação, a União Europeia) revelar o que se esconde por baixo da rosa.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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surpreso 01.05.2017

É castanho de m.erda!

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