Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 16 de abril de 2017 às 21:32

Marques Mendes: "Governo e parceiros estão definitivamente rendidos à ortodoxia europeia"

"Eleições só mesmo em 2019. Não vai haver qualquer crise política". As certezas de Luís Marques Mendes, nas notas da semana, na SIC e que o Negócios publica os excertos.

O PLANO DE ESTABILIDADE

 

O Plano de Estabilidade aprovado pelo Governo tem três conclusões muito curiosas:

Primeira: este Plano de Estabilidade (PE) é feito com duas intenções claras: agradar a Bruxelas e agradar às agências de rating. Conclusão: Vai ajudar a que Portugal em Maio saia da "lista negra" dos países com défices excessivos; e vai permitir lá para o final do ano que as agências de rating subam o rating de Portugal.

 
Segunda: este Plano de Estabilidade mostra que o Governo e os seus parceiros estão definitivamente rendidos à ortodoxia europeia. É o caso do défice. De resto, em termos de metas, um Governo PSD/CDS não faria um PE substancialmente diferente. O que mostra que o discurso é diferente, mas a prática, em termos de metas, é muito semelhante à do governo anterior.

 
Terceira: se as metas apresentadas forem cumpridas, este Programa de Estabilidade é um autêntico programa eleitoral do PS. Um programa praticamente imbatível nas eleições de 2019. Vê-se em 3 aspectos:

a) Nos objectivos: com um crescimento acima de 2%, alavancado pelas exportações e pelo investimento, um défice de praticamente zero em 2019 e um desemprego na ordem dos 8% é muito difícil alguém perder eleições;

b) Na gestão de expectativas: algumas das previsões são conservadoras para que o resultado final seja melhor que o esperado e, com isso, o Governo cante maior vitória (é o caso do crescimento do PIB);

c) No calendário das medidas: em 2018 haverá algum alívio fiscal. Mas a maior revisão de escalões do IRS para agradar à classe média será em 2019, ano de eleições.

 
Há apenas um senão: e esse senão é se há alguma crise mundial ou europeia e a retoma económica não se confirma. Então, sim, tudo pode ir por água abaixo. Os riscos são grandes com o mundo no estado em que está.

 

COMO REAGE A OPOSIÇÃO?

 
Com todo este cenário, o PSD e o CDS ficam em muito maus lençóis. É muito difícil fazer oposição assim – com o país a crescer, o défice a reduzir-se e o desemprego a baixar.

Primeiro: porque o PSD e o CDS ficaram sem discurso. O seu discurso era sobretudo o discurso do défice e do crescimento.


Depois: porque o contraste joga a favor de António Costa e contra Passos Coelho e Assunção Cristas. Ainda que as circunstâncias sejam diferentes, a ideia é que Passos e Cristas faziam cortes e Costa devolve rendimentos.

 
As circunstâncias em que hoje António Costa governa tem várias semelhanças com a governação de Cavaco Silva entre 1985 e 1987.

a)      Agora, como há 30 anos, o governo era minoritário;

b)      Agora, como há 30 anos, o país estava a crescer depois de uma crise;

c)      Agora, como há 30 anos, o país vinha de um regate duro e a oposição era associada a muita austeridade;

d)      Agora, como há 30 anos, a oposição não tinha causas e via-se em grandes dificuldades;

e)      Agora, como há 30 anos, o PR era de cor diferente do PM, mas entendiam-se na perfeição;

f)       Na altura, o PS, que era oposição, ficou 10 anos na oposição. O que sucederá à oposição de hoje?

 
De resto, é por estas e por outras que Assunção Cristas já sinalizou que quer ir às eleições em listas separadas. É certo que quer afirmar a sua autonomia. Mas a grande razão é a dúvida quanto à vitória. Se ela pensasse que PSD e CDS podiam vencer, nunca teria admitido esse cenário. Porque é mais fácil ganhar com listas conjuntas que em listas separadas.

 

TENSÕES NA GERINGONÇA?

 
Apesar deste ambiente favorável, notam-se algumas tensões na geringonça: a questão do Novo Banco; a dos congelamentos das carreiras na função pública; a questão das reformas sem penalizações (as mais antigas).

 
Os mais distraídos podem pensar que pode vir uma crise política por aí. Nada de mais errado. Não vai haver qualquer crise política. Eleições só mesmo em 2019.

 
Tudo não passa de teatro. Todas estas tensões são mera encenação.

a)      Primeiro: cada partido, ou seja, o PCP e o BE, tem de afirmar a sua identidade e tem de fazer prova de vida. Logo, tem de fazer de conta que bate o pé.

b)      Segundo: tudo isto tem também a ver com as eleições autárquicas. Em tempo de eleições, os partidos têm de acentuar as suas diferenças.

c)      Terceiro: para "engolirem" os sapos e elefantes do défice e da cartilha de Bruxelas, PCP e BE precisavam de algumas compensações noutras áreas.

 
Eles, PS, PCP e BE, acordam tudo.

a)      Acordaram a aprovação dos dois últimos orçamentos e acordarão o próximo;

b)      Acordaram o Plano de Estabilidade;

c)      Acordaram mesmo as divergências;

d)      Até nas autárquicas acordaram muita coisa – por exemplo, nos concelhos onde o PCP é poder, o PS combinou apresentar candidatos frouxinhos para não fazer perigar o poder do PCP.

e)      Ou seja, são muito profissionais e não querem qualquer crise.

 

ONDE PÁRA A INVESTIGAÇÃO AOS OFFSHORES?

 
O PR promulgou este fim de semana a lei que obriga a tornar públicas as transferências para offshores: Quer os montantes das transferências; Quer os respectivos destinos.

Muito bem. É uma exigência de transparência.

 
Tudo isto tem a ver com a polémica de há dois meses acerca das transferências não divulgadas para offshores. E a este respeito, importa perguntar: Onde pára o inquérito que a Inspecção Geral de Finanças prometeu fazer até ao fim de Março? Já estamos em meados de Abril e nada.

Será que temos mais uma investigação a ficar relegada para as calendas?

 
E já que se fala em investigações: qual a conclusão da investigação que o MP abriu em Agosto acerca das viagens de alguns secretários de Estado aos jogos de futebol do Europeu, a convite de um patrocinador?

Já passaram 8 meses e NADA. Será que o inquérito foi arquivado e ninguém sabe? Ou ainda não está concluído, apesar de já terem passado 8 meses?

Eu estou à vontade para perguntar isto porque sempre achei que não há crime nenhum nas viagens realizadas. Pode ser um problema político mas não um problema criminal!

O que não é aceitável é esta tendência em Portugal: passamos semanas a falar apaixonadamente de um assunto; o tema vai depois para investigação; e nunca mais sabemos conclusões de nada. É nas offshores; é nas viagens do futebol; etc., etc.

 

 

REGIONALIZAÇÃO DE VOLTA?

 
O PCP surgiu esta semana com a ideia de voltar a fazer um novo referendo sobre a regionalização daqui a dois anos, em 2019. Julgo que não é uma ideia nada feliz. 


Primeiro: não há nenhuma onda no país nem uma única manifestação a pedir a criação de regiões. O que mostra que voltar ao tema é muito artificial.


Segundo: fica a sensação de que é uma forma de criar mais lugares políticos e mais cargos políticos, sobretudo numa altura em que muitos autarcas (de todos os partidos) deixam de o ser, por força da limitação de mandatos, e gostariam de ter outras oportunidades.


Terceiro: fica também a sensação de que é um convite a mais despesa pública, com mais órgãos, mais estruturas e mais burocracia. Ora, do que o país precisa é de gradualmente reduzir a despesa do Estado para poder descer a carga fiscal.

 
Dir-se-á: mais regionalização ajudará o país a crescer mais. Eu diria que está por provar que assim seja. Portugal teve o maior período de crescimento da sua história entre 1985 e 2000 e não havia regionalização. 

 
Julgo que a prioridade é descentralizar e não regionalizar. Aí, sim, na descentralização é que se deve investir. E ainda há muitas competências que estão no Poder Central e deviam passar para o Poder Local.

 

 

COREIA DO NORTE

 
O mundo está cada vez mais perigoso. E a Coreia do Norte é já há vários anos um dos casos potencialmente de maior perigo. Por que é que a situação se agravou agora? A resposta é Donald Trump.

 
Até agora tínhamos um líder na Coreia do Norte irracional, paranóico e insensato, que vive para reforçar o seu poder militar à custa do sofrimento do seu povo. E não se sabe até onde vai o seu poderio militar.

Agora temos do outro lado do potencial conflito um Presidente americano igualmente irracional, errático e impreparado. Que é, ele próprio, um factor de instabilidade permanente. Muda de opinião sobre tudo – sobre a Nato, a Rússia, a Síria, tudo.

 
Uma mistura de loucura e irracionalidade dos dois lados só pode causar preocupação. É uma mistura potencialmente explosiva. É natural que neste momento os dois lados do conflito estejam a fazer um jogo psicológico – ou seja, a testar-se mutuamente. A medir forças.

 
Posto isto, não acho que seja provável um conflito militar.

a)      Primeiro: a China tem aqui um papel determinante. É o único país que ainda apoia a Coreia e tem uma diplomacia de paciência e de subtileza. E a China já começou a mudar a linguagem e a dar sinais de recuo e de contenção para o regime da Coreia. A China não vai avalizar um conflito com os EUA.

b)      Segundo: também não é de estranhar que a Coreia do Norte esteja a endurecer posições para consumo interno. Arranjar um inimigo externo para se unir internamente.

c)      Finalmente: também se espera um recuo de bom senso na irracionalidade de Trump, como já sucedeu noutras matérias. Mesmo assim, tudo isto é brincar com o fogo. E, ás vezes, perde-se o controle das situações.

 

ELEIÇÕES FRANCESAS

 
Estamos a uma semana da 1.ª volta das Presidenciais francesas e está tudo muito empatado. Para já, o desfecho é uma espécie de 1X2. Temos 4 candidatos em condições de passarem à 2.ª volta: Marine Le Pen – Extrema-direita;   Macron – Centro; Fillon – Direita; Melenchon – Extrema-esquerda.

 
O mais provável – Le Pen e Macron disputarem a 2.ª volta com a provável vitória de Macron;


Um susto – Passarem Le Pen e Melenchon à 2.ª volta. Dois radicais, à direita e à esquerda, isto seria fatal para a Europa.


Uma surpresa – Marine Le Pen não passar à 2.ª volta.

 
Grandes conclusões a tirar para já:

a) Primeiro: o desastre do Partido Socialista (o seu candidato tem apenas 6% ou 7% dos votos);

b) Segundo: Macron – apesar de não ter partido, pode vir a ser o próximo Presidente;

c) Finalmente: há uma falência dos partidos tradicionais. O sistema partidário francês está a implodir e poderá ter de ser reconfigurado.

 
Uma coisa é certa: se na Síria ou na Coreia do Norte se joga a paz no mundo, nas eleições francesas joga-se o futuro da União Europeia. Um Presidente de França anti-euro ou anti-Europa é o fim da União Europeia. Estou certo, porém, de que tal não vai suceder.

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mais votado IS 06.05.2017

As certezas precipitadas de Luis Marques Mendes.

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IS 06.05.2017

As certezas precipitadas de Luis Marques Mendes.

IS 06.05.2017

"Ó valha-nos Santa Ingrácia" seria possível evitar afirmações estúpidas e sem nexo sob anonimato e omitir a sua obscena ignorância?

Jorge 18.04.2017

As medidas extraordinárias que este governo foi tomando (muito contra a sua própria vontade e vocação) foram obras de Passo Coelho. Este, incessantemente, instou Costa a fazer o que era preciso, mantendo a austeridade e em muitos caso até aumentando esses níveis. Obrigado Passos Coelho. Não desista.

Anónimo 18.04.2017

Mais vale tarde que nunca. Fazer prognósticos com os quais não estamos familiarizados é mais difícil acertar. Marques Mendes já mudou.Só os burros é que não mudam! A verdade é que hoje falar de Passos é falar de miséria, roubo, e falência da CNP. Isto é:NÃO HÁ FUTURO Falar de Costa é a ESPERANÇA!

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