Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 29 de julho de 2018 às 21:29

Marques Mendes: O BE desmascarou-se. Afinal é igual aos outros partidos

As notas da semana de Marques Mendes nos seus comentários na SIC. O comentador fala do caso Ricardo Robles, dos fogos na Grécia, da crise nos comboios, da descentralização contestada, de Centeno e os professores e a entrevista de Rio.

CASO RICARDO ROBLES

 

  1.      Este caso é um desastre político para Ricardo Robles e para o Bloco.
  1.      Hipocrisia e incoerência de Ricardo Robles

a)     O vereador do Bloco de Esquerda não cometeu nenhuma ilegalidade. O que ele fez faz muito boa gente: compra um imóvel, valoriza-o com obras e coloca-o à venda para fazer uma mais-valia e ter um lucro significativo.;

b)     O problema é que Ricardo Robles, no discurso, é contra este tipo de operações. Para ele, estas operações são especulativas e absolutamente condenáveis.

c)      Ou seja: ele diz uma coisa e depois faz outra. Ele critica os especuladores mas depois é um deles. Ele reprova a especulação, mas beneficia com ela. A isto chama-se incoerência e hipocrisia. É a velha máxima de Frei Tomás: olha para o que ele diz, não para o que ele faz.

d)     A partir de agora, este homem perdeu autoridade, legitimidade e credibilidade. Não tem autoridade para criticar os negócios imobiliários; não tem legitimidade para denunciar a especulação. E a sua credibilidade fica nas ruas da amargura. Não é mais levado a sério.

 

  1.      Finalmente, o desastre do Bloco de Esquerda.

a)     Perante o que se passou, o BE só tinha uma atitude credível – demarcar-se de Ricardo Robles. Ao fazer o contrário, o BE desmascarou-se – afinal, é igual aos outros. Critica os adversários mas pactua com os seus.

b)     É deprimente ver Catarina Martins a defender o indefensável. Se isto se passasse com alguém de direita, censurava, reprovava, pedia a demissão, caía o Carmo e a Trindade. Como é dentro de casa, cala, consente e aprova. É assim que se perde a credibilidade.

c)      Afinal, é fácil criticar os outros. Pinho, Sócrates, Tutti-Frutti, o BPN, tudo isso. Mas o que é credível é ter a coragem de criticar os seus, de pôr ordem dentro da própria casa. O BE está a ser vitima dos falsos moralismos que apregoa e com os quais gosta de desqualificar os adversários.

 


FOGOS NA GRÉCIA

 

  1.      Infelizmente, tudo isto faz lembrar Portugal de 2017. Já vimos este filme.

a)     Uma tragédia sem descrição, com gente completamente desesperada;

b)     Incêndios violentíssimos que ninguém foi capaz de parar;

c)      Acusações de falta de atenção, de desleixo, de inércia e de falta de combate. Pedidos de demissão e acusação de responsabilidades políticas.

d)     Infelizmente, quase tudo igual.

 

  1.      Mas há outro problema: o combate às alterações climáticas.

a)     Catástrofes destas vão ser, infelizmente, cada vez mais frequentes no futuro, por causa da conjugação de dois factores: um clima mais seco (sobretudo na região do Mediterrâneo) e temperaturas mais elevadas.

b)     O que nos conduz à questão das alterações climáticas. É um problema sério. Não é nenhuma invenção.

c)      A grande questão é esta: estamos ou não estamos a cumprir as metas definidas para estancar o aumento da temperatura média do Planeta? Vejamos três quadros essenciais:

  •        Quadro 1Ranking europeu – Portugal é o segundo melhor país europeu no cumprimento das metas definidas.
  •        Quadro 2Energia Renovável  no Consumo Final de Energia – Portugal já alcançou 92% da sua meta para 2020.
  •        Quadro 3Gases com Efeito de Estufa – Estamos a descarbonizar a economia.

  

CRISE NOS COMBOIOS

 

  1.       Contestação popular durante a semana relativamente à degradação da qualidade dos serviços da CP. Compreende-se. A situação é explosiva:
  •         Há 20 anos que não se compra um comboio novo em Portugal.
  •         As estimativas apontam para a necessidade de 10 novos comboios para o longo curso e de 25 para o serviço regional.
  •         Há falta de pessoal na área de manutenção (EMEF) porque saem os que se reformam e não são substituídos.;
  •         Os poucos investimentos que têm sido feitos são nas linhas e não em material circulante.
  •         E, como se tudo isto não chegasse, a partir do próximo ano chega a Portugal a liberalização no transporte ferroviário de passageiros. Logo, mais concorrência, mais operadores, espanhóis e não espanhóis, e, como dizia há dias um sindicalista, isto pode ser a "morte da CP".

 

  1.       Por que é que isto sucede? Por dois erros antigos em matéria de transportes: ou falta de investimento ou investimento errado.

a)      Governo Durão BarrosoNão havia recursos para investimento público. Portugal entrou na lista negra dos défices e teve de apertar o cinto.

b)      Governo José Sócrates – Houve a megalomania do TGV e a irresponsabilidade das PPP rodoviárias. A ferrovia ficou a ver navios.

c)      Governo Passos CoelhoCom a troika e o espectro da bancarrota, não havia dinheiro para investimento público.

d)      Governo António CostaMuitas promessas e muita propaganda (até foi aprovado o Programa Ferrovia 2020, que está tudo muito atrasado, por causa das cativações). E o investimento previsto é sobretudo em obras e não em material circulante.

 

  1.       Em conclusão: sem investimento, os serviços públicos degradam-se. É assim na Saúde. É assim nos Comboios. E é muita gente afectada.
  •         Em 2017 houve 122 milhões de passageiros a viajar na CP.
  •         É natural que as pessoas se revoltem. Precisam do comboio para ir para o trabalho. Não para fazer turismo.



DESCENTRALIZAÇÃO CONTESTADA

 

  1.      O Parlamento aprovou há dias, por maioria PS/PSD, a nova lei quadro de descentralização. Uma lei que está a ser muito contestada pelos autarcas e que é, na prática, uma fraude:

a)     PrimeiroNão é uma reforma. É um simulacro de reforma.

b)     SegundoTudo o que é importante continua no Poder Central.

c)      TerceiroAs populações voltam a ser defraudadas.

 

  1.      Vejamos apenas alguns exemplos na Educação e na Saúde.

a)     Educação:

  •        Os municípios vão definir a oferta formativa dentro do seu concelho? Quantos cursos e que tipo de cursos? Não.
  •        E definir o número de turmas e de alunos por turma? Não.
  •        E ajustar horários e calendário escolares à realidade local? Não.
  •        E ter responsabilidades sobre os professores? Não.
  •        Acerca disto, que é essencial para o sucesso educativo, tudo continua na mesma.

b)     Saúde:

  •        Os municípios vão tratar da gestão dos centros de saúde? Não.
  •        E ter a responsabilidade sobre o seu pessoal técnico, superior e administrativo? Não.
  •        E definir a estratégia de intervenção domiciliária? Não.
  •        Acerca de tudo isto, NADA. Nenhuma mudança concreta!

 

  1.       Esta lei é mais uma oportunidade perdida. Claro que na prática é impossível o Presidente da República vetá-la, porque foi aprovada por uma maioria alargada de dois terços( PS/PSD). Mas era o que verdadeiramente merecia: ser vetada e devolvida ao Parlamento para ser aprofundada.

 

CENTENO E OS PROFESSORES

 

  1.      A entrevista do MF ao Público visava marcar terreno e deixar vários recados sobre o próximo OE. Mas converteu-se, afinal, numa entrevista sobre a questão dos professores. E Mário Centeno fez de polícia mau – não é possível satisfazer as pretensões dos professores. O que falta saber é se, nesta matéria, vamos ter um polícia bom.

 

  1.      A questão dos professores é um berbicacho para o Governo. Já não há nenhuma boa solução. Há as más e as menos más. Vejamos:

a)     Se o Governo dá o que os sindicatos pedem, compromete o OE e gera um precedente de proporções financeiras incalculáveis. Impossível.

b)     Se o Governo dá o que os sindicatos pedem mas de forma gradual, ao longo de anos, compromete os anos futuros, os governos futuros e os orçamentos futuros. Inaceitável.

c)      Se o Governo dá o que os sindicatos pedem, não em remuneração mas em antecipação da idade de reforma – a solução menos má – acaba por ceder à mesma, cria um precedente para outras carreiras e tem igualmente impacto financeiro na Caixa Geral de Aposentações.

d)     E, finalmente, se o Governo cede aos professores, desagrada à opinião pública que está contra a reivindicação dos professores. Se o Governo não cede e o conflito se mantém, provavelmente o Governo paga um preço político – não chega à maioria absoluta. Os professores têm um peso eleitoral significativo.

 

  1.      Em conclusão: o que nasce torto tarde ou nunca se endireita. Este provérbio aplica-se na perfeição ao caso dos professores. O Governo criou facilidades  no início. Por isso, colhe agora dificuldades.

 

A ENTREVISTA DE RIO

 

  1.      Na forma, Rui Rio esteve bem. Esteve solto, tranquilo, descontraído, fluente, afirmativo. Passou uma imagem de autenticidade e sentido de Estado.

 

  1.      No conteúdo, teve uma falha e uma precipitação.

a)     A falha é que Rui Rio foi igual a António Costa. Em quase tudo. Nos professores, no salário mínimo, nos impostos. A diferença é meramente de calendário e de ritmo. Não há diferenças de fundo. E isto sucede porquê?

  •        Primeiro, porque Rio gosta de António Costa, aprecia António Costa, concorda no essencial com António Costa. É a vida. Gostos não se discutem.
  •        Depois, porque Rio não tem um pensamento alternativo ao do Governo. O que é um risco: se aos olhos do país não há  diferenças entre Costa e Rio, os portugueses  preferem o original à cópia.

b)     A precipitação de Rui Rio foi a ideia que lançou de que, se o OE chumbasse, o PS devia apoiar um Governo PSD/CDS. Uma ideia que não lembrava "ao careca".

  •        Então Rio vai falar em nome do CDS? O líder do PSD pode falar pelo PSD mas não pode falar pelo CDS. O CDS não é um apêndice do PSD. Por isso é que o CDS não gostou e Cristas veio logo criticar Rio e demarcar-se da ideia.
  •        Conclusão: esta ideia parece ter sido inventada no Largo do Rato. Objectivamente só serviu para criar dificuldades entre PSD e CDS. Logo, só serviu aos interesses de António Costa.

 

MARCELO OUVE PARTIDOS

 

  1.      Amanhã e na 3ª feira o PR vai ouvir os partidos. Do que é que verdadeiramente se trata?

a)     Primeiro: é uma iniciativa habitual do Presidente.

b)     Segundo: não é difícil antever os principais temas a abordar.

  •        No plano externoA UE, o Quadro Financeiro Plurianual e as Migrações.
  •        No plano internoA questão do OE; dos professores: o estado da saúde; a legislação laboral; os incêndios florestais.

 

  1.      Politicamente falando, julgo que há pelo menos três questões relevantes:

a)     Primeira questão: o Presidente quer assegurar-se de que o OE para 2019 vai ser mesmo aprovado pela geringonça. Ou seja, que não haverá nem crise nem eleições antecipadas. E julgo que vai ter respostas favoráveis.

b)     Segunda questão: a eventual criação de um novo partido, a ser liderado por Santana Lopes. Vai ser provavelmente um tema a abordar. O PR vai seguramente querer indagar: o que pode mudar, sobretudo à direita? Que perturbações e que desafios o novo partido pode colocar ao nosso sistema partidário?

c)      Terceira questão: o novo ano lectivo, a abrir em Setembro. Com a crise dos professores em agenda, o PR vai querer assegurar-se de que o próximo ano lectivo vai abrir com normalidade, assim defendendo os anseios dos alunos e das suas famílias.

NOTAS FINAIS:

  •        Excelentes resultados da CGD e do BCP
  •        Um português em alta – Fausto Quadros
  •        Comporta – Adiada a venda para garantir transparência
  •        Boas notícias para os emigrantes:

a)     Recenseamento eleitoral passa a ser automático.

b)     Voto por correspondência passa a ser gratuito.

c)      Cidadãos com dupla nacionalidade, residentes no estrangeiro, passam a poder ser eleitos para a AR (desde que não tenham cargos nos países de acolhimento).

 

pub