Nuno Garoupa
Nuno Garoupa 27 de fevereiro de 2013 às 23:00

A Crise da direita

A direita portuguesa chegou ao poder em dois momentos cruciais da economia e da sociedade portuguesa, na Primavera de 2002 e no Verão de 2011. Em ambos os casos enfrentou uma grave situação, primeiro de grave estagnação económica, e depois de colapso financeiro.

São a herança de políticas de endividamento e financiamento de lóbis instalados preconizadas pelo PS ao longo de quinze anos em nome de um Estado social (que fundamentalmente corporativizou e paralisou a economia portuguesa), sem reformas estruturais e com crédito barato. A conjuntura internacional em 2011 finalmente colocou a nu os erros acumulados pelo PS que ainda hoje evidentemente não assume (ocultando-se nas tais políticas de crescimento e emprego que não existem como mostra a realidade dos últimos treze anos e, mais recentemente, o desastre da gestão Hollande em França).

A direita portuguesa duas vezes falhou completamente a reforma do Estado. Isso foi claro com a fuga de Durão Barroso em 2004, o breve episódio do Governo Santana e a derrota nas eleições de Abril de 2005. O anúncio do ministro das Finanças na semana passada de pedir mais tempo à troika e aderir ao discurso político do PS confirma a completa derrota do actual Governo que evidentemente já vinha a sentir-se à muito tempo.

Seria bom que a direita quer política, quer intelectual por uma vez fizesse um esforço de perceber a sua incapacidade de executar o seu modelo político. Não vale a pena culpar os outros, os jornalistas, os comunistas, os sindicatos, os lóbis, o Tribunal Constitucional, etc. Parece-me que qualquer reflexão ponderada sobre o fracasso da direita deve começar com dois pontos importantes, o programa político e a liderança na sua execução.

Primeiro, ao contrário do que diz a vulgata dos comentadores habituais, não há qualquer programa de reformas consistentes, nem qualquer visão ideológica neoliberal consistente. Os três governos da direita (Durão, Santana e Passos) andaram sempre ao sabor de vacuidades, respondendo às pressões do momento, sem um programa estruturante, totalmente dependentes do ministro das Finanças (o que é absolutamente ilógico quando este não tem nenhuma visão política, mas apenas responde a necessidades técnicas como ficou patente na semana passada) e sem objectivos consistentes nas diferentes áreas do Estado.

Segundo, a direita tem um grave problema de liderança política que terá de resolver se quer realmente ter uma terceira oportunidade para não falhar. Um Governo de direita que defende a meritocracia individual e a concorrência saudável como forma de organizar a sociedade não pode em nenhum momento tolerar ministros Relvas. E não pode alimentar a confusão entre negócios públicos e negócios privados que são hoje a espinha dorsal do Estado português construído pelo PS. A gestão política dos vários Governos da direita é um verdadeiro manual de tudo o que não se deve fazer. Assim não surpreende o desastre que tem sido.

Professor de Direito da University of Illinois

nuno.garoupa@gmail.com

A sua opinião3
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado Maldonado 22.10.2013

Sr. Garoupa,
Desculpe chama a atenção para um erro de ortografia no seu artigo.
Onde escreveu " ...a sentir-se à muito tempo.", deve escrever " ... há muito tempo".
Presumo que deve ter estudado este assunto quando frequentou o ensino básico.

comentários mais recentes
Maldonado 22.10.2013

Sr. Garoupa,
Desculpe chama a atenção para um erro de ortografia no seu artigo.
Onde escreveu " ...a sentir-se à muito tempo.", deve escrever " ... há muito tempo".
Presumo que deve ter estudado este assunto quando frequentou o ensino básico.

bcarlos 28.02.2013

Execelente. O problema caro Nuno, é que PS e certo PSD são farinha do mesmo saco. O problema deste país é que não há uma direita como deve ser. A nossa direita é torta. Enquanto o país for liderado pela maçonaria que é tranversal (vai da esquerda à direita) cujos principais elementos são Relvas e Cª, o País não vai a lado nenhum. Todos nós sabemos (incluindo socialistas) que o governo de Guterres e principalmente o do coveiro Sócrates levaram o país à ruína. Também sabemos que a gestão do preseidente PS francês é uma desgraça: onde está o crescimento em França? Mas este governo que herdou um fardo pesadíssimo não tem ido pelos caminhos direiros. Falha na comunicação com o País e falhou na eleição de ministros e de políticas.

parrana 28.02.2013

Mas qual direita? Não existe Direita em Portugal desde o 74. Basta ver que os psd~são sociais democratas e os cds centristas. Mais: ninguém, na classe política, se assume de Direita.

pub
pub
pub