Nuno Garoupa
Nuno Garoupa 29 de maio de 2013 às 23:30

Portugal é Mesmo Diferente

O que seria de Portugal se, em vez dos mesmos de sempre, fossem buscar gente que inova, inventa, gere bem as suas empresas, os seus negócios ou os seus laboratórios, cria riqueza, faz carreiras internacionais nos mais variados sectores da economia e da sociedade e não têm generosas pensões.

(1) Na Grécia, os partidos tradicionais afundaram-se e da crise financeira nasceu a coligação radical Syriza (o partido do regime, PASOK, é agora a terceira força com 12% dos votos). Na Itália, o palhaço (com o devido respeito) Beppe Grillo tem 26% dos votos e obriga a esquerda tradicional a governar com Berlusconi para manter o "statu quo". Em Espanha, as sondagens indicam que os dois partidos tradicionais, PP e PSOE, não chegam aos 50% dos votos. O mais recente partido de centro, UpyD, pode chegar aos 15% enquanto os comunistas da Izquierda Unida andam nos 20%. Na Comunidade de Madrid, para as eleições regionais, anuncia-se que os comunistas podem relegar o PSOE para terceira força.

Grécia, Itália, Espanha: implosão do sistema partidário tradicional; Portugal: tudo na mesma. Segundo as sondagens, os descontentes do PSD-CDS (uma grande percentagem são certamente funcionários públicos) voltam ao PS que é um dos principais causadores da situação complicada do país e que não apresenta nenhuma alternativa. Basta olhar para o seu inspirador actual, o presidente francês Hollande, para saber que uma vez no Governo, o PS vai-se limitar a fazer o que faz o PSD-CDS. Os nomes que circulam para as presidencias de 2016 são eles mesmo os responsáveis dos erros acumulados ao longo de décadas. Nada muda portanto. O jogo do Dupont & Dupont continua de boa saúde e recomenda-se. Nem as caras mudam.

Portugal é mesmo diferente do resto da Europa do Sul. A elite dominante dos partidos dominantes asfixia tudo o resto (basta ver essa singularidade da análise política ser feita por... políticos). O Estado de direito português está construído para impedir Beppe Grillos ou qualquer coisa semelhante. Não há uma sociedade civil livre. Há que reconhecer que está tudo atado e bem atado. Quem se mexe, não fica na fotografia. E como a fotografia continua a dar imensos dividendos, ninguém se mexe.

(2) Ao contrário de outras sociedades, felizmente, em Portugal, temos um número limitado de gente capaz. Estão todos identificados, não são mais que umas quinhentas pessoas, muitos já com generosas pensões depois de três décadas a servir o país. Por isso, para pesar deles, às vezes mesmo já aposentados, desdobram-se em sinecuras, lugares e posições relevantes no aparelho do Estado ou dele dependentes (o que é quase tudo). Noutros pobres países, onde a gente capaz não está identificada há anos como em Portugal, é preciso fazer concursos (quando não mesmo internacionais), avaliar o mérito e a experiência. Em Portugal, podemos saltar todos esses processos tão custosos e nomear imediatamente alguém da lista dos fantásticos quinhentos. Dizem os mal informados, em conversa de café, que são sempre os mesmos. Pois são. Ainda bem. O que seria de Portugal se, em vez dos mesmos de sempre, fossem buscar gente que inova, inventa, gere bem as suas empresas, os seus negócios ou os seus laboratórios, cria riqueza, faz carreiras internacionais nos mais variados sectores da economia e da sociedade e não têm generosas pensões. Uma ideia absolutamente louca claro está.

Nota: Por razões de natureza profissional, este artigo põe fim a uma colaboração de mais de cinco anos com o Negócios. Aos directores do jornal e aos leitores os meus agradecimentos. Evidentemente que o debate de ideias segue.

Professor de Direito da University of Illinois

nuno.garoupa@gmail.com

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