Pedro Fontes Falcão
Pedro Fontes Falcão 10 de abril de 2018 às 20:31

A negociação e a guerra no futebol nacional

Houve outro erro na avaliação do poder e reação de alguns "stakeholders", que, ainda mais após a reação dos jogadores, de imediato os apoiaram contra o presidente.

O presidente do Sporting começou uma guerra contra a grande parte dos seus principais jogadores, que se presume que obviamente pretendia ganhar.

 

 "Quem vai à guerra dá e leva", diz o provérbio popular. Se vamos usar a guerra como ferramenta de negociação para tentar obter certos objetivos, convém antes pensar o poder que temos e que objetivos queremos atingir, qual o poder e as possíveis reações de quem iremos atacar, mas também qual o poder e as possíveis reações de outros "stakeholders" que poderão influenciar o desfecho da guerra e como os deveremos tentar influenciar para que nos apoiem.

 

Ora neste caso, na minha perspetiva, quem começou a guerra tinha um elevado poder recentemente "ratificado" com uma estrondosa vitória numa assembleia-geral. Também tinha definido um objetivo que os jogadores jogassem melhor e cometessem menos erros. Mas esse objetivo não é fácil de se conseguir com uma humilhação pública dos jogadores, ou seja, havia um objetivo mas o modo de o alcançar não foi adequado.

 

Contudo, houve um erro na avaliação do poder e da possível reação dos jogadores, que parece ter sido subestimado pelo presidente, pois aparentemente não esperaria que os jogadores se juntassem todos (ou quase todos) numa posição pública, forte, mas focada no bem maior, que é o bem do clube.

 

Houve outro erro na avaliação do poder e reação de alguns "stakeholders", que, ainda mais após a reação dos jogadores, de imediato os apoiaram contra o presidente.

 

Um último erro negocial foi de aparentemente não ter um plano de contingência, caso começasse a perder a guerra, como por exemplo pedir desculpa e trabalhar com os jogadores e todos os outros colaboradores para, todos juntos, se focarem em obter o melhor para o Sporting. No momento em que escrevo, não se tornou visível nenhum plano de contingência, além de que cada vez mais adeptos, comentadores desportivos e membros de órgãos sociais estão a reagir contra o presidente. Este parece estar a perder a guerra que começou, na minha opinião, porque escolheu a forma errada de negociar.

 

Espero que o futebol e todos os grandes clubes nacionais tenham estabilidade e trabalhem no sentido de valorizar o desporto-rei numa perspetiva de longo prazo, e que o Sporting, como grande clube nacional, encontre a estabilidade o mais depressa possível, sem que se comecem mais guerras que prejudiquem o clube e o futebol nacional.

 

Gestor e docente convidado do ISCTE-IUL

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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