Pedro Fontes Falcão
Pedro Fontes Falcão 05 de julho de 2018 às 19:42

Pessoas desperdiçadas

Os mais jovens são cada vez menos leais às empresas, mudam mais frequentemente de empregos e, além disso, querem trabalhar menos horas do que as gerações mais velhas.

Os recursos com valor devem ser aproveitados. É uma afirmação óbvia…

 

Mas quantas pessoas a partir dos 45-50 anos que vão para o desemprego sentem que têm dificuldades em voltar a ter um trabalho do mesmo nível do que tinham antes de ficarem desempregadas? Eu diria que, infelizmente, é a grande maioria…

 

Muitas empresas preferem um colaborador mais novo (que supostamente vai "correr mais", ou seja, trabalhar mais pela empresa, dada a sua juventude) e mais barato (para se cortar nos custos em remunerações, independentemente de se poder também estar a perder valor ao desperdiçar o colaborador mais velho - lembra a história de reduzir peso perdendo músculo em vez de se perder gordura).

 

Para certos empregos, ainda admito que isso possa acontecer. Mas convém pensar melhor neste tema.

 

Por um lado, o "time-to-market" é cada vez mais relevante para a generalidade das empresas. Assim, há uma cada vez maior importância de tomar decisões depressa, sem ter muito tempo para análises e reflexões, e sem conseguir aceder a muita informação de suporte à decisão. Quem melhor para o fazer? Pessoas com experiência, maturidade e resultante maior capacidade de intuição… Mais ainda se a pessoa tiver "história" da empresa (caso trabalhe lá há muitos anos). Então porque os trocam pelos mais novos?

 

Por outro lado, os mais jovens são cada vez menos leais às empresas, mudam mais frequentemente de empregos e, além disso, querem trabalhar menos horas do que as gerações mais velhas para poderem dispor de mais tempo para a sua vida pessoal, mesmo que implique menor remuneração. Ou seja, os mais velhos são mais leais e poderão (nalguns casos) estar dispostos a trabalhar mais horas. Então porque os trocam pelos mais novos?

 

Além disto, porque não se equaciona o trabalho em part-time para estas pessoas? Em vários casos, é perfeitamente viável e adequado, mesmo tendo em conta as nossas diferenças culturais face a outros países onde o part-time funciona em diversas funções e cargos. Será uma desculpa para não os quererem nas empresas?

 

Termino, obviamente, referindo que os mais jovens têm muito valor. O meu ponto é que os mais velhos também têm valor (tendo em conta aspetos como a maior relevância do "time-to-market", a maior lealdade à entidade empregadora e eventual maior disponibilidade de carga horária), e temos de os aproveitar. Com boa gestão, há espaço para todos (novos e menos novos)!

 

Gestor e docente convidado do ISCTE-IUL

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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