Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 12 de setembro de 2018 às 21:50

Clarificação no Brasil

No Brasil houve um nó que se desatou. Lula da Silva conformou-se com a inevitabilidade de estar fora da corrida presidencial e pediu ao seu partido, o PT, para apoiar Fernando Haddad.

Estamos a um mês da primeira volta e não é naturalmente fácil, para ninguém, entrar em campanha tão pouco tempo antes. Tem o seu lado positivo, também têm menos tempo para o atacar. De qualquer maneira, mal foi anunciada como praticamente certa a sua candidatura, surgiu logo uma notícia na Globo de que o Ministério Público de um estado o ia acusar daqueles crimes normalmente falados nestas situações. A notícia durou pouco tempo e Fernando Haddad vai mesmo disputar. Do outro lado do espectro político, Bolsonaro viu a facada que levou fazê-lo subir nas sondagens de 22 para 30 por cento. Nessa sondagem, ainda antes da confirmação do novo candidato do PT, era Ciro Gomes que finalmente aparecia em segundo lugar, que dá direito à segunda volta. Ciro Gomes é um caso intrigante. Há muito tempo que o sigo, com apreço por várias das suas qualidades. Mas é assim um estilo de birrento, com muito mau feitio que, num dia de má-disposição, diz o maior disparate, a maior inconveniência, ou até a maior ofensa. É, no entanto, um homem inteligente e que diz de si próprio- nunca ninguém tendo posto em causa- que é uma pessoa íntegra e que combate a corrupção. Está há décadas na vida política, e já ocupou variados cargos a nível federal e a nível estadual e nunca a sua honestidade foi questionada. No entanto, não tem a força de um PT atrás de si e a entrada de Haddad retirar-lhe-á provavelmente essa posição de segundo classificado. Está também na corrida, Henriques Meirelles, durante algum tempo considerado como um forte candidato pelo seu perfil tecnocrático, financeiro, de pessoa competente, supostamente antipolítico. Só que, apesar de ter uma campanha muito bem feita, não ultrapassa os 3 por cento nas sondagens que vão sendo feitas.

Aqui há semanas, chamei a atenção neste mesmo espaço, para a pouquíssima atenção que em Portugal se dedica às eleições no Brasil. Devo reconhecer que nesta última semana as coisas melhoraram um pouco. Por mim, para além do que vou lendo, tenho a sorte de ser amigo daquele que é, na minha opinião, o maior especialista português sobre o sistema político brasileiro, José Paulo Fafe.

Numa fase em que vários países da América Latina vivem enormes dificuldades, de diferentes naturezas, como sejam a Argentina e a Venezuela, é muito importante que o Brasil, na sequência da eleição do próximo Presidente, consiga afirmar um clima de estabilização política, recuperação económica e equilíbrio social, também como exemplo de esperança para vários países seus vizinhos. Tem sido um caminho árduo, mas a democracia brasileira, apesar de tudo, vai resistindo.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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